Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [Capítulo Quinto] Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

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    IsaíasLetra
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    [Capítulo Quinto] Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

    Mensagem  IsaíasLetra em Qua Mar 10, 2010 2:42 am

    Com as primeiras sombras da tarde desatou se o dilúvio, e poucos minutos depois era impossível ver para além de um braço estendido. O velho deitou se na rede à espera que chegasse o sono, agitado pelo violento e monocórdico murmúrio da água omnipresente.
    Antonio José Bolívar Proaño dormia pouco. Quando muito, cinco horas de noite e duas à sesta. Bastava lhe isso. O resto do tempo, dedicava o aos romances, a divagar acerca dos mistérios do amor e a imaginar os lugares onde aconteciam as histórias.
    i Ao ler acerca de cidades chamadas Paris, Londres ou
    Genebra, tinha de realizar um enorme esforço de concentração para as imaginar. Uma só vez visitou uma cidade grande,
    Ibarra, da qual recordava sem grande precisão as ruas empedradas, os quarteirões de casas baixas, semelhantes umas às outras, todas brancas, e a Praça de Armas cheia de gente a passear diante da catedral.
    Esta era a sua maior referência do mundo e, ao ler os enredos acontecidos em cidades de nomes longínquos e sérios como Praga ou Barcelona, achava que Ibarra, pelo nome, não era cidade apta para amores imensos.
    Durante a viagem para a Amazónia, ele e Dolores Encarnación del Santísimo Sacramento Estupiñán Otavalo passaram por outras duas cidades, Loja e Zamora, mas viram nas muito fugazmente, de modo que não podia afirmar se nelas o amor encontraria ou não terreno adequado.
    Mas, sobretudo, gostava de imaginar a neve.
    Também em menino a vira como uma pele de borrego posta a secar nos bordos do vulcão Imbabura, e em certas ocasiões parecia lhe uma extravagância imperdoável que as personagens dos romances a pisassem sem se preocupar por estarem a sujá la.
    Quando não chovia, abandonava a rede e descia de noite até ao rio para fazer as suas necessidades. Depois cozinhava as porções de arroz para o dia, fritava fatias de banana verde e, se dispunha de carne de macaco, acompanhava as refeições com uns bons pedaços.
    Os colonos não apreciavam a carne de macaco. Não compreendiam que aquela carne dura e escassa fornecia muitíssimas mais proteínas que a carne dos porcos ou vacas alimentadas com pasto requintado, pura água, e que não sabia a nada. Por outro lado, a carne de macaco exigia ser mastigada durante longo tempo e, principalmente aos que não tinham dentes próprios, dava a sensação de terem comido muito sem carregar o corpo desnecessariamente.
    Engolia as refeições com café amargo torrado numa vasilha de ferro e moído com uma pedra, que adoçava com açúcar mascavado e fortalecia com uns esguichozinhos de Frontera.
    Na estação das chuvas as noites prolongavam se, e dava se ao gosto de se deixar ficar na rede até a necessidade de urinar ou a fome o empurrarem de lá para fora.
    O que havia de melhor na estação das chuvas era que bastava descer até ao rio, mergulhar, afastar umas pedras, esgaravatar no leito lamacento, para dispor logo de uma dúzia de camarões gordos para o pequeno almoço.
    Foi o que fez naquela manhã. Despiu se, prendeu à cintura uma corda com a outra extremidade atada fortemente a uma estaca, não se desse o caso de surgir uma enchente súbita ou um tronco à deriva, e, com água pelo peito, mergulhou.
    O rio corria espesso, mesmo no fundo, mas as suas mãos experimentadas apalparam o lodo depois de mover uma pedra, até que os camarões se lhe prenderam aos dedos com as suas vigorosas pinças.
    Emergiu com um punhado de bichos agitando se frenéticos, e preparava se para sair da água quando ouviu os gritos.
    - Uma canoa! Vem aí uma canoa!
    Apurou a vista tentando descobrir a embarcação, mas a chuva não deixava ver nada. O manto de água caía quase sem descanso perfurando a superfície do rio com milhões de picadas, com tal intensidade que nem sequer conseguiam formar se auréolas.
    Quem poderia ser? Só um demente se atreveria a navegar no meio daquela chuvada.
    Ouviu como os gritos se repetiam e distinguiu umas incertas figuras correndo para o cais.
    Vestiu se, deixou os camarões tapados com um boião à entrada da choça e, cobrindo se com uma capa de plástico, dirigiu se também para lá.
    Os homens puseram se de lado ao verem chegar o administrador. O gordo vinha sem camisa e, protegido debaixo de um amplo guarda chuva preto, escorria água por todo o corpo.
    - Que raio se está a passar? gritou o administrador aproximando se da beira da água.
    Como única resposta, apontaram lhe a canoa atada a um dos pilares. Era uma daquelas embarcações mal construídas pelos garimpeiros. Chegou meio submersa, flutuando apenas por ser de madeira. A bordo agitava se o corpo de um indivíduo com a garganta desfeita e os braços rasgados. As mãos, apoiadas nos costados da embarcação, mostravam os dedos mordiscados pelos peixes, e não tinha olhos. Os galos dos rochedos, esses pequenos e fortes pássaros vermelhos, os únicos que eram capazes de voar no meio do dilúvio, tinham se encarregado de lhe retirar toda a expressão.
    O administrador ordenou que içassem o corpo e, quando o tiveram em cima das tábuas do cais, reconheceram no pela boca.
    Era Napoleón Salinas, um pesquisador de oiro que na tarde anterior tinha sido atendido pelo dentista. Salinas era um dos poucos indivíduos que não tiravam os dentes podres e que preferiam que lhos retocassem com pedaços de oiro. Tinha a boca cheia de oiro, e agora mostrava os dentes num sorriso que não provocava admiração, enquanto a chuva lhe alisava os cabelos.
    O administrador procurou o velho com o olhar.
    - Então? Outra vez a gata?
    Antonio José Bolívar Proaño inclinou se para o morto sem deixar de pensar nos camarões que deixara prisioneiros. Abriu a ferida do pescoço, examinou os rasgões dos braços, para finalmente concordar com um movimento de cabeça.
    - Que diabo, menos um. Mais tarde ou mais cedo a porca havia de o levar comentou o administrador.
    O gordo tinha razão. Durante a época das chuvas os garimpeiros permaneciam encerrados nas suas choças mal construídas, à espera das poucas pausas que não duravam muito e mais pareciam respirações das nuvens antes de tornarem a deixar cair a sua carga com maior energia.
    Tomavam excessivamente à letra isto de se dizer que "o tempo é oiro" e, se as chuvas não descansavam, jogavam ao jogo das quarenta com baralhos gordurosos, de figuras frequentemente irreconhecíveis, odiando se, desejando apoderar se do bastão do Rei de Paus, cobiçando se mutuamente, e, quando acabava o dilúvio, era normal que vários deles desaparecessem, quem sabe se tragados pela corrente ou pela voracidade da floresta.
    às vezes, do cais de El Idilio viam passar um corpo inchado entre os ramos e troncos arrastados pela enchente, e ninguém se preocupava com atirar lhe um laço.
    Napoleón Salinas tinha a cabeça descaída e só os braços rasgados indicavam que tentara defender se.
    O administrador esvaziou lhe os bolsos. Encontrou um descorado documento de identificação, algumas moedas, restos de tabaco e uma bolsinha de cabedal. Abriu a e contou vinte pepitas de oiro, pequenas como grãos de arroz.
    - Então, perito, qual é a tua opinião?
    - É a mesma que a sua, excelência. Saiu daqui tarde, bastante bêbedo, foi surpreendido pela chuvada e arribou à margem para pernoitar. Foi aí que a fêmea o atacou. Ferido e tudo, conseguiu chegar até à canoa, mas perdeu sangue rapidamente.
    - Ainda bem que estamos de acordo disse o gordo.
    O administrador ordenou a um dos que ali se tinham reunido que lhe segurasse no guarda chuva para ter as mãos livres e repartiu as pepitas de oiro pelos presentes. Depois de recuperar o guarda chuva, empurrou o morto com um pé até cair de cabeça na água. O corpo afundou se pesadamente e a chuva não deixou ver onde reapareceu a flutuar.
    Satisfeito, o administrador sacudiu o guarda chuva com o ar de quem se vai embora mas, vendo que ninguém o secundava e que todos olhavam para o velho, cuspiu de mau humor.
    - Pronto, acabou se a função. De que é que estão à espera?
    Os homens continuavam a olhar para o velho. Obrigaram no a falar.
    - A questão é que, se uma pessoa vai a navegar e é surpreendida pela noite, de que lado é que se abeira para pernoitar?
    - Do mais seguro. Do nosso respondeu o gordo.
    - É como diz, excelência. Do nosso. Procura se sempre este lado, porque se num desses apertos se perde a canoa, resta o recurso de regressar à povoação abrindo caminho a machete. Foi isso mesmo que o pobre Salinas pensou.
    - E então? Que importa agora isso?
    - Importa muito. Se pensar um pouco descobrirá que o animal também se encontra deste lado. Ou acha que as onças se metem ao rio com este tempo?
    As palavras do velho provocaram comentários nervosos, e os homens queriam ouvir qualquer coisa da parte do administrador.
    Afinal, a autoridade tinha que servir para algo de prático.
    O gordo sentia a espera como uma agressão e fingia que estava a pensar encolhendo o obeso cachaço debaixo do guarda chuva preto. A chuva aumentou de repente, e os sacos de plástico que cobriam os homens pegaram se lhes como uma segunda pele.
    - O bicho anda longe. Não viram como vinha o cadáver?
    Sem olhos e meio comido pelos animais. Isso não acontece numa hora, nem em cinco. Não vejo motivo para borrarem as calças fanfarronou o administrador.
    - Pode ser. Mas também é certo que o morto não vinha inteiriçado de todo, e não deitava mau cheiro acrescentou o velho. Não disse mais nada, nem esperou outro comentário do administrador. Deu meia volta e foi se, a pensar se comeria os camarões fritos ou cozidos.
    Ao entrar na choça, por entre a capa de chuva conseguiu ver no cais o solitário e obeso perfil do administrador debaixo do guarda chuva, como um enorme e escuro cogumelo que acabasse de crescer em cima das tábuas.


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