Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [Capítulo Quarto] Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

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    IsaíasLetra
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    [Capítulo Quarto] Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

    Mensagem  IsaíasLetra em Qua Mar 10, 2010 2:41 am

    Depois de cinco dias de navegação, chegou a El Idilio. O lugar estava mudado. Uma vintena de casas arrumava se em rua junto ao rio e, ao fim, uma construção um pouco maior ostentava na frontaria um letreiro amarelo com a palavra
    ADMINISTRAÇÃO.
    Havia também um cais de tábuas que Antonio José Bolívar evitou, e navegou alguns metros mais para baixo até que o cansaço lhe mostrou um sítio onde ergueu a choça.
    De início, os habitantes do lugar rejeitaram no, olhando o como um selvagem ao vê lo entrar pela mata adentro, armado da espingarda, uma Remington de catorze herdada do único homem que matara e de maneira errada, mas depressa descobriram o valor que para eles representava tê lo ali por perto.
    Tanto os colonos como os garimpeiros cometiam toda a sorte de erros estúpidos na floresta. Depredavam na sem consideração, o que até fazia com que alguns animais se tornassem ferozes.
    às vezes, para ganharem uns metros de terreno plano, destruíam sem ordem, deixando isolada uma quebra ossos, e esta desforrava se eliminando lhes uma mula, ou cometiam a torpeza de atacar os sainos na época do cio, o que transformava os pequenos javalis em monstros agressivos. E havia também os gringos vindos das instalações petrolíferas.
    Chegavam em grupos buliçosos, carregando armas suficientes para equipar um batalhão, e lançavam se pela mata adentro dispostos a acabar com tudo o que mexesse. Deleitavam se a perseguir as onças, sem distinguir entre crias ou fêmeas prenhas , e, mais tarde, antes de partir, faziam se fotografar junto das dúzias de peles postas em estacas.
    Os gringos iam se embora e as peles ficavam a apodrecer até que uma mão diligente as atirava ao rio, e as onças sobreviventes desforravam se estripando reses famélicas.
    Antonio José Bolívar ocupava se de as manter à distância, enquanto os colonos devastavam a floresta construindo a obra prima do homem civilizado: o deserto.
    Mas os animais duraram pouco. As espécies sobreviventes tornaram se mais astutas, e, seguindo o exemplo dos xuar e de outras culturas amazónicas, os animais também se internaram pela floresta, num êxodo imprescindível para Oriente.
    Antonio José Bolívar ficou com todo o tempo para si mesmo, e descobriu que sabia ler ao mesmo tempo que lhe apodreciam os dentes.
    Preocupou se com este último facto ao sentir como a boca expelia um hálito fétido acompanhado de persistentes dores nos maxilares.
    Presenciou muitas vezes a actuação do doutor Rubicundo
    Loachamín nas suas viagens semestrais e nunca se imaginou a ocupar a cadeira dos padecimentos, até que um dia as dores se tornaram insuportáveis e não teve outro remédio senão subir para a consulta.
    - Doutor, em poucas palavras, poucos me restam. Eu mesmo tirei os que me lixavam de mais, mas lá atrás não posso.
    Limpe me a boca e discutamos o preço de uma dessas placas tão bonitas.
    Nessa mesma altura, o Sucre desembarcou uma parelha de funcionários públicos, os quais, por se terem instalado com uma mesa à entrada da administração, foram tomados por cobradores de um novo imposto qualquer.
    O administradór viu se forçado a usar de todo o seu escasso poder de convicção para arrastar os fugidios habitantes do lugar até à mesa governamental. Ali, os dois entediados emissários do poder recolhiam os sufrágios secretos dos habitantes de El Idilio, por ocasião de umas eleições presidenciais que haveriam de realizar se um mês depois.
    Antonio José Bolívar também foi à mesa.
    - Sabes ler? perguntaram lhe.
    - Não me lembro.
    - Vamos a ver. Que diz aqui?
    Desconfiado, aproximou a cara do papel que lhe estendiam e assombrou se por ser capaz de decifrar os sinais escuros.
    - O se nhor senhor can di da to candidato.
    - Sabes? Tens direito de voto.
    - Direito de quê?
    - De voto. No sufrágio universal e secreto. De escolher democraticamente entre os candidatos que aspirem à primeira magistratura. Estás a perceber?
    - Nem uma palavra. Quanto é que me custa esse direito?
    - Nada, homem. Por isso é que é um direito.
    - E em quem é que tenho que votar?
    - Em quem vai ser. Em sua excelência, o candidato do povo.
    Antonio José Bolívar votou no eleito, e em troca do exercício do seu direito recebeu uma garrafa de Frontera.
    Sabia ler.
    Foi a descoberta mais importante de toda a sua vida. Sabia ler. Mas não tinha que ler.
    De má vontade, o administrador acedeu a emprestar lhe uns jornais velhos que conservava de maneira visível, como provas da sua inegável vinculação ao poder central, mas Antonio José
    Bolívar não os achou interessantes.
    A reprodução de parágrafos de discursos pronunciados no
    Congresso, em que o ilustre deputado Bucaram garantia que outro ilustre deputado tinha o esperma a aguar se, ou um artigo descrevendo como Artemio Marteluna matou com vinte punhaladas, mas sem rancor, o seu melhor amigo, ou a crónica denunciando a vaidade do Manta por ter capado um árbitro de futebol no estádio, não Lhe pareciam aliciantes por aí além para exercitar a leitura. Tudo isso acontecia num mundo longínquo, sem referências que o tornassem compreensível e sem estímulos que o tornassem imaginável.
    Certo dia, juntamente com os caixotes de cerveja e as garrafas de gás, o Sucre desembarcou um aborrecido clérigo, enviado pelas autoridades eclesiásticas com a missão de baptizar meninos e acabar com os concubinatos. Três dias ficou o frade em El Idilio, sem encontrar ninguém disposto a levá lo até aos aldeamentos dos colonos. Por fim, aborrecido com a indiferença da clientela, sentou se no cais à espera de que o navio o tirasse dali. Para matar as horas de canícula, tirou um velho livro do saco e tentou ler, até que a força da modorra foi maior que a sua.
    O livro nas mãos do padre teve um efeito de isco para os olhos de Antonio José Bolívar. Pacientemente, esperou até que o padre, vencido pelo sono, o deixou cair para um lado.
    Era uma biografia de São Francisco que vistoriou furtivamente, sentindo que ao fazê lo cometia um fugaz latrocínio.
    Juntava as sílabas e, à medida que o fazia, as ânsias de compreender tudo quanto estava naquelas páginas levaram no a repetir a meia voz as palavras agarradas.
    O padre acordou e olhou divertido para Antonio José Bolívar, de nariz metido no livro.
    - É interessante? perguntou.
    - Desculpe, eminência. Mas vi o a dormir e não o quis incomodar.
    - Interessa te? repetiu o padre.
    - Parece que fala muito de animais respondeu timidamente.
    - São Francisco amava os animais. Amava todas as criaturas de Deus.
    - Eu também gosto deles. à minha maneira. Conhece São
    Francisco?
    - Não. Deus privou me desse prazer. São Francisco morreu há um ror de anos. Quer dizer, deixou a vida terrena e vive agora eternamente junto do criador.
    - Como é que sabe?
    - Porque li o livro. É um dos meus preferidos.
    O padre acentuava as suas palavras acariciando a encadernação gasta. Antonio José Bolívar olhava para ele encantado, sentindo a comichão da inveja.
    - Já leu muitos livros?
    - Uns quantos. Dantes, quando era ainda novo e não se me cansavam os olhos, devorava qualquer obra que me caísse nas mãos.
    - Todos os livros tratam de santos?
    - Não. No mundo há milhões e milhões de livros. Em todas as línguas e tratando de todos os assuntos, incluindo alguns que deviam estar vedados aos homens.
    Antonio José Bolívar não compreendeu aquela censura e continuava de olhos cravados nas mãos do padre, mãos gorduchas, brancas, em cima da encadernação escura.
    - De que é que falam os outros livros?
    - Já te disse. De todos os assuntos: Há livros de aventuras , de ciência, histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor...
    Este último tema interessou lhe. Do amor sabia o que era referido nas canções, especialmente nos pasillos cantados por
    Julito Jaramillo, cuja voz de guaialquilense pobre saía às vezes de um rádio a pilhas tornando os homens taciturnos.
    Segundo os pasillos, o amor era como a picada de um moscardo invisível, mas por todos procurado.
    - Como são os livros de amor?
    - Disso receio não te poder falar. Não li mais que um ou dois.
    - Não interessa. Como são?
    - Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam por vencer as dificuldades que as impedem de ser felizes.
    O chamamento do Sucre anunciou o momento de zarpar e não se atreveu a pedir ao padre que lhe deixasse o livro. O que, isso sim, em contrapartida ele lhe deixou foi maiores desejos de ler.
    Passou toda a estação das chuvas a ruminar a sua desgraça de leitor inútil, e pela primeira vez se viu acossado pelo bichinho da solidão. Bicho astuto. Atento ao menor descuido para se apropriar da sua voz, condenando o a longas conferências órfãs de auditório.
    Tinha que se habituar à leitura, e para isso precisava de sair de El Idilio. Talvez não fosse necessário ir muito longe, talvez em El Dorado houvesse alguém que tivesse livros, e espremia a cabeça a pensar como é que havia de fazer para os conseguir.
    Quando as chuvas amainaram e a floresta se povoou de animais novos, abandonou a choça, e, munido da espingarda, de vários metros de corda e do machete convenientemente afiado, entranhou se pela mata.
    Lá permaneceu durante quase duas semanas, nos territórios dos animais apreciados pelos homens brancos.
    Na região dos micos, região de vegetação alta, esvaziou umas dúzias de cocos para preparar as armadilhas. Aprendera a fazer aquilo com os xuar e não era difícil. Bastava esvaziar os cocos fazendo lhes uma abertura não superior a uma polegada de diâmetro, abrir Lhes um buraco do outro lado que permitisse passar uma corda e segurá la por dentro mediante um apertado nó cego. A outra ponta da corda atava se a um tronco e, por fim, metiam se alguns calhaus dentro da cabaça. Os micos, que estavam a observar tudo aquilo lá das alturas, apenas iam esperar que ele se fosse embora para descerem e verificarem o conteúdo das cabaças. Pegavam nelas, agitavam nas e, ao ouvirem o som de guizo provocado pelos calhaus, metiam uma mão tentando tirá los. Logo que tivessem uma pedrinha na mão, agarrariam nela, cheios de avareza, e lutariam inutilmente por tirá la de lá.
    Dispôs as armadilhas e, antes de deixar a região dos micos, procurou um papaio alto, um daqueles a que com razão se chamam papaios do mico, tão altos que só eles conseguiam chegar até aos frutos deliciosamente crestados pelo sol e muito doces.
    Abanou o tronco até cairem os frutos de polpa aromática e encaminhou se para a região dos louros, papagaios e tucanos.
    Carregava os frutos no bornal e caminhava procurando as clareiras, evitando encontros com animais não desejados.
    Uma série de quebradas levaram no até uma zona de vegetação frondosa, povoada de vespeiros e favos de abelhas operosas e listrada de excrementos de pássaros por todos os lados. Logo que entrou naquela espessura produziu se um silêncio que durou várias horas, até que as aves se acostumaram à sua presença.
    Com lianas e cipós fabricou duas jaulas de cerrada teia, e quando ficaram prontas procurou plantas de yahuasca.
    Então esmigalhou as papaias, misturou a aromática polpa amarela dos frutos com o sumo das raízes de yahuasca, conseguido com o cabo do machete, e, fumando, esperou que a mistura fermentasse. Provou. Tinha um sabor doce e forte.
    Satisfeito, afastou se até um riacho, onde acampou, enchendo a barriga de peixes.
    No dia seguinte verificou o êxito obtido com as armadilhas,
    Na região dos micos encontrou uma dúzia de animais cansados do estéril esforço de libertar as mãos apanhadas, agarradas dentro das cabaças. Seleccionou três casais jovens, meteu os numa das jaulas e libertou os restantes micos.
    Mais tarde, no local onde deixara os frutos fermentados encontrou uma multidão de louros, papagaios e outras aves dormindo nas posições mais inimagináveis. Alguns tentavam andar com passos oscilantes ou atreviam se a levantar voo batendo as asas descoordenadamente.
    Meteu numa jaula um casal de papagaios de cara roxa, dourados e azuis, e outro de lourinhos shapul, apreciados por serem faladores, e despediu se das outras aves desejando Lhes um bom despertar. Sabia que a bebedeira lhes ia durar um par de dias.
    Com os troféus às costas, regressou a El Idilio, e esperou que a tripulação do Sucre terminasse as suas tarefas de carga para se aproximar do mestre.
    - Acontece que tenho de ir a El Dorado e que não tenho dinheiro. O senhor conhece me. Leva me e pago lhe depois, quando vender os bichinhos.
    O mestre deitou um olhar às jaulas e coçou a barba de vários dias antes de responder.
    - Com um dos lourinhos dou me por pago. Já há tempos que prometi um ao meu filho.
    - Então separo lhe um par e fica também coberta a passagem de regresso. Além disso, estes passarinhos morrem de tristeza se se separam.
    Durante a travessia tagarelou com o doutor Rubicundo
    Loachamín e pô lo ao corrente das razões da sua viagem. O dentista ouvia o divertido.
    - Ó velho, mas se querias dispor de uns livros, porque é que antes não mos encomendaste? Tenho a certeza de que em
    Guaiaquil tos tinha conseguido.
    - Agradecido, doutor. Mas dá se o caso que ainda não sei que livros quero ler. Mas logo que o souber aproveitarei a sua oferta.
    El Dorado não era, de modo algum, uma cidade grande.
    Tinha uma centena de casas, a maioria delas alinhadas junto ao rio, e a sua importância residia no quartel da polícia, numa ou noutra repartição do Governo, numa igreja e numa escola pública pouco concorrida. Para Antonio José Bolívar
    Proaño, depois de quarenta anos sem abandonar a floresta, era regressar ao mundo enorme que outrora conhecera.
    O dentista apresentou lhe a única pessoa capaz de o ajudar nos seus propósitos, a professora da escola, e conseguiu também que o velho pudesse pernoitar nas instalações escolares, uma enorme casa de canas equipada com cozinha, em troca de ajudar nas tarefas domésticas e na confecção de um herbário.
    Uma vez vendidos os micos e os louros, a professora mostrou lhe a sua biblioteca.
    Emocionou se ao ver tantos livros juntos. A professora possuía uns cinquenta volumes amimados num armário de tábuas, e entregou se à agradável tarefa de os vistoriar ajudado pela lupa recentemente adquirida.
    Foram cinco meses, durante os quais formou e poliu as suas preferências de leitor, ao mesmo tempo que se enchia de dúvidas e de respostas.
    Ao passar em revista os textos de geometria perguntava a si mesmo se verdadeiramente valeria a pena saber ler, e desses livros conservou uma frase longa que soltava nos momentos de mau humor: "A hipotenusa é o lado oposto ao ângulo recto num triângulo rectângulo..." Frase que mais tarde deixava aparvalhados os habitantes de El Idilio, que a recebiam como um trava língua absurdo ou uma incontestável blasfémia.
    Os textos de história pareceram Lhe um chorrilho de mentiras. Era lá possível que aqueles senhorecos pálidos, de luvas até aos cotovelos e apertados calções de saltimbancos, fossem capazes de ganhar batalhas. Bastava vê los de caracolinhos de cabelo bem cuidados, agitados pelo vento, para perceber que aqueles tipos não eram capazes de matar uma mosca. De tal maneira que os episódios históricos foram desprezados pelos seus gostos de leitor.
    Edmundo dAmicis e Coração mantiveram no ocupado durante quase metade da sua estada em El Dorado. Aí há um assunto que anda para a frente. Aquele era um livro que se pegava às mãos e os olhos enganavam o cansaço para continuarem a ler, mas tantas vezes vai o cântaro à fonte que uma tarde disse de si para si que tanto sofrimento não podia ser possível e tanta pouca sorte não cabia num corpo só. Era preciso ser se um grande cabrão para gozar a fazer sofrer daquela maneira um pobre rapaz como opequeno Lombardo e, por fim, depois de passar revista a toda a biblioteca, encontrou aquilo que verdadeiramente desejava.
    O Rosário, de Florence Barclay, continha amor, amor por todos os lados. As personagens sofriam e misturavam a sorte com os sofrimentos de uma maneira tão bela que se lhe embaciava a lupa de lágrimas.
    A professora, não de todo de acordo com as suas preferências de leitor, permitiu lhe que levasse o livro, e com ele regressou a El Idilio para o ler mil e uma vezes diante da janela, tal como se dispunha agora a fazer com os romances que o dentista lhe trouxera, livros que esperavam insinuantes e horizontais em cima da mesa alta, alheios à desordenada olhadela a um passado em que Antonio José Bolívar Proaño preferia não pensar, deixando os poços da memória abertos, para os encher com as venturas e os tormentos de amores mais prolongados que o tempo.


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