Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [Capítulo Segundo]Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

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    IsaíasLetra
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    [Capítulo Segundo]Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

    Mensagem  IsaíasLetra em Qua Mar 10, 2010 2:35 am

    O administrador da circunscrição, único funcionário, máxima autoridade e representante de um poder demasiadamente longínquo para infundir receio, era um indivíduo obeso que suava sem descanso.
    Diziam os habitantes do lugar que a suadeira dele começara logo que pusera pé em terra depois de desembarcar do Sucre, e que desde então não deixara de espremer lenços, ganhando assim a alcunha de Babosa.
    Murmuravam também que, antes de chegar a El Idilio, esteve nomeado para uma cidade grande qualquer da serra e que, por causa de um desfalque, o mandaram para aquele recanto perdido da região oriental como castigo.
    Suava, e a sua outra ocupação consistia em administrar a provisão de cerveja. Escorropichava as garrafas bebendo sentado à secretária, em goladas curtas, pois sabia que, depois de terminada a provisão, a realidade se tornaria mais desesperante.
    Quando a sorte estava do seu lado, podia acontecer as suas securas serem recompensadas com a visita de um gringo bem abastecido de uísque. O administrador não bebia aguardente como os restantes habitantes da terra. Garantia que a Frontera lhe provocava pesadelos, e vivia acossado pelo fantasma da loucura.
    Desde não se sabe que data imprecisa vivia com uma indígena, que espancava selvaticamente, acusando a de o ter embruxado, e todos estavam à espera de que a mulher o assassinasse. Até se faziam apostas a tal respeito.
    Desde o momento da sua chegada, sete anos antes, tornara se odiado por todos.
    Chegou com a mania de cobrar impostos por razões incompreensíveis. Pretendeu vender licenças de pesca e caça num território ingovernável. Quis cobrar direito de usufruto aos apanhadores de lenha que juntavam madeira húmida numa floresta mais antiga que todos os estados e, num arroubo de zelo cívico, mandou construir uma choça de canas para fechar lá os bêbedos que se negavam a pagar as multas por alteração da ordem pública.
    A sua passagem provocava olhares depreciativos, e o seu suor recompensava o ódio da gente do lugar.
    Em contrapartida, o anterior titular, esse sim, fora um homem querido. O seu lema era viver e deixar viver. A ele deviam as vindas do barco e as visitas do correio e do dentista, mas durou pouco tempo no cargo.
    Certa tarde envolveu se numa altercação com uns garimpeiros.
    e dois dias depois foram dar com ele de cabeça aberta a golpes de machete e meio devorado pelas formigas.
    El Idilio ficou um par de anos sem autoridade que salvaguardasse a soberania equatoriana daquela floresta sem limites possíveis, até que o poder central mandou o castigado.
    Todas as segundas feiras ele tinha a obsessão das segundas feiras o viam a içar a bandeira num pau do cais, até que uma tempestade levou o trapo pela floresta adentro, e com ele a certeza dos dias de segunda feira, que não interessavam a ninguém.
    O administrador chegou ao cais. Passava um lenço pela cara e pelo pescoço. Espremendo o, ordenou que fizessem subir o cadáver.
    Tratava se de um homem novo, de não mais de quarenta anos, loiro e de forte compleição.
    - Onde é que o encontraram?
    Os xuar olharam uns para os outros, sem saber se haviam ou não de responder.
    - Estes selvagens não percebem castelhano? grunhiu o administrador.
    Um dos indígenas decidiu responder.
    - Rio acima. A dois dias daqui.
    - Deixem me ver a ferida ordenou o administrador.
    O segundo indígena moveu a cabeça do morto. Os insectos tinham lhe devorado o olho direito e o esquerdo ainda ostentava um brilho azul. Apresentava um rasgão que começava no queixo e acabava no ombro direito. Pela ferida viam se restos de artérias e alguns vermes esbranquiçados.
    - Foram vocês que o mataram.
    Os xuar retrocederam.
    - Não. Xuar não matando.
    - Não mintam. Despacharam no com um golpe de machete. Vê se bem clarinho.
    O gordo a escorrer suor puxou do revólver e apontou aos surpreendidos indígenas.
    - Não. Xuar não matando atreveu se a repetir o que falara.
    O administrador fê lo calar se com uma pancada com a coronha da arma.
    Um delgado fio de sangue brotou da testa do xuar.
    - A mim não me vêm aldrabar como se eu fosse parvo. Foram vocês que o mataram. Andando. Lá na administração é que me vão dizer os motivos. Mexam se, seus selvagens. E o senhor, capitão, prepare se para levar dois presos no barco.
    O mestre do Sucre encolheu os ombros como única resposta.
    - Desculpe, mas está a mijar fora do penico. Essa ferida não é de um machete. Era a voz de Antonio José Bolívar.
    O administrador espremeu o lenço furiosamente.
    - E tu que sabes disto? Eu sei o que vejo.
    O velho aproximou se do cadáver, inclinou se, rodou lhe a cabeça e abriu a ferida com os dedos.
    - Está a ver as carnes abertas em tiras? Está a ver como no queixo são mais profundas e, à medida que descem, se vão tornando mais superficiais? Vê que não é um, mas sim quatro cortes?
    - Que diabo queres tu dizer me com isso?
    - Que não há machetes de quatro lâminas. Marcas de garras.
    São garras de uma onça. Foi morto por um animal adulto.
    Venha cá. Cheire.
    O administrador passou o lenço pela nuca.
    - Cheirar? Que está a apodrecer vejo eu.
    - Agache se e cheire. Não tenha medo do morto nem dos vermes. Cheire a roupa, o cabelo, tudo.
    Vencendo a repugnância, o gordo inclinou se e cheiricou com trejeitos de cão temeroso, sem se aproximar muito.
    - A que é que cheira? perguntou o velho.
    Aproximaram se outros curiosos para cheirar também os despojos.
    - Não sei. Sabe se lá. A sangue, a vermes respondeu o administrador.
    - Fede a mijo de gato disse um dos curiosos.
    - De gata. A mijo de gata grande especificou o velho.
    - Isso não prova que não foram estes que o mataram.
    O administrador tentou recuperar a sua autoridade, mas a atenção dos concidadãos centrava se em Antonio José Bolívar.
    O velho tornou a examinar o cadáver.
    - Foi morto por uma fêmea. O macho deve andar por aí, talvez ferido. A fêmea matou o e a seguir mijou lhe em cima para o marcar, para que os outros animais não o comessem enquanto ela ia à procura do macho.
    - Historietas de velha. Estes selvagens mataram no e depois humedeceram no com mijo de gato. Vocês engolem qualquer baboseira declarou o administrador.
    Os indígenas quiseram replicar, mas o cano da arma apontado para eles foi uma ordem imperativa de guardarem silêncio.
    - E porque é que haviam de fazer isso? interveio o dentista.
    - Porquê? Estranho a sua pergunta, doutor. Para o roubarem.
    Que outro motivo têm eles? Estes selvagens não se detêm diante de nada.
    O velho abanou a cabeça incomodado e olhou para o dentista.
    Este compreendeu de que é que Antonio José andava à procura e ajudou o a depositar os pertences do morto em cima das tábuas do cais.
    Um relógio de pulso, uma bússola, uma carteira com dinheiro, um isqueiro a gasolina, uma faca de caça, um fio de prata com a figura de uma cabeça de cavalo. O velho falou a um dos xuar no seu idioma e o indígena saltou para a canoa para lhe entregar uma mochila de lona verde.
    Quando a abriram, encontraram munições de espingarda e cinco peles de onças muito pequenas. Peles de gatos mosqueados que não mediam mais que um palmo. Estavam húmidas de sal e fediam, embora não tanto como o morto.
    - Bem, excelência, parece me que tem o caso resolvido disse o dentista.
    O administrador, suando sempre, olhava para os xuar, para o velho, para a gente da terra, para o dentista, e não sabia o que havia de dizer.
    Os indígenas, logo que viram as peles, trocaram entre si nervosas palavras e saltaram para as canoas.
    - Alto! Vocês esperam aqui até eu decidir outra coisa ordenou o gordo.
    - Deixe os ir. Têm bons motivos para isso. Ou será que ainda não entendeu?
    O velho olhava para o administrador e abanava a cabeça.
    De repente, pegou numa das peles e atirou Lha. O gordo suado recebeu a com um gesto de nojo.
    - Pense, doutor. Tantos anos aqui e não aprendeu nada.
    Pense. O gringo filho da puta matou os cachorros e feriu o macho com certeza. Olhe para o céu, está quase a desatar a chover. Imagine o quadro. A fêmea deve ter saído à caça para encher a barriga e amamentá los durante as primeiras semanas de chuva. Os cachorrinhos não estavam desmamados e o macho ficou a cuidar deles. É assim que se passa entre os animais, e assim os deve ter surpreendido o gringo. Agora a fêmea anda por aí louca de dor. Agora anda à caça do homem. Deve ter lhe sido fácil seguir a pista do gringo. O infeliz carregava consigo o cheiro a leite cujo rasto a fêmea encontrou. Já matou um homem. Já sentiu e conheceu o sabor do sangue humano e, para o pequeno cérebro do bicho, todos nós, homens, somos os assassinos da sua ninhada, para ela todos temos o mesmo cheiro. Deixe ir os xuar embora. Têm que dar o aviso na sua aldeia e nas próximas. Cada dia que passar tornará a fêmea mais desesperada e perigosa, e procurará sangue perto dos povoados. Gringo filho de uma grande puta! Olhe para as peles. Pequenas, não servem para nada. Caçar com as chuvas a chegar, e com espingarda! Olhe para as perfurações que têm. Está a compreender? O senhor a acusar os xuar e agora temos que o infractor é gringo. A caçar fora da temporada, e espécies proibidas. E se está a pensar na arma, garanto lhe que os xuar não a têm, pois encontraram no muito longe do lugar onde morreu. Não acredita? Repare nas botas. A parte dos saltos está despegada. Quer isto dizer que a fêmea o arrastou um bom pedaço depois de o matar. Olhe para os rasgões na camisa, no peito. Foi por ali que o animal o agarrou para o puxar. Pobre gringo. A morte deve ter sido horrorosa. Olhe para a ferida. Uma das garras dilacerou lhe a jugular. Deve ter agonizado durante uma meia hora enquanto a fêmea lhe bebia o sangue que jorrava em borbotões, e depois, inteligente animal, arrastou o até à margem do rio para impedir que as formigas o devorassem. Então mijou o, marcando o, e devia andar à procura do macho quando os xuar o encontraram. Deixe os ir e peça lhes que avisem os garimpeiros que acampam na margem. Uma onça transtornada de dor é mais perigosa que vinte assassinos juntos.
    O administrador não respondeu nem uma palavra e foi escrever o auto de notícia para o posto policial de El Dorado.
    Notava se o ar cada vez mais quente e mais espesso.
    Pegajoso, aderia à pele como uma película incómoda, e trazia da floresta o silêncio que antecede a tormenta. De um momento para o outro iriam abrir se as comportas do céu.
    Da administração chegava o lento matraquear de uma máquina de escrever, enquanto dois homens terminavam o caixão para transportar o cadáver que esperava esquecido em cima das tábuas do cais.
    O mestre do Sucre praguejava olhando para o céu a pingar e não parava de insultar o morto. Ele mesmo se encarregou de forrar o caixão com uma camada de sal, sabendo que não iria servir de muito.
    O que havia a fazer era o costume com qualquer pessoa morta na floresta, e que por absurdas disposições jurídicas não podia ser esquecida numa clareira: abrir lhe um bom corte desde o pescoço até à virilha, esvaziá la da tripalhada e encher o corpo com sal. Dessa maneira chegavam apresentáveis ao fim da viagem.
    Mas, neste caso, tratava se de um maldito gringo e era preciso levá lo inteiro, com os vermes a comê lo por dentro, e quando desembarcasse nada mais seria que um pestilento saco de humores.
    O dentista e o velho contemplavam o rio que passava sentados em garrafas de gás. De vez em quando passavam um ao outro a garrafa de Frontera e fumavam charutos de folha dura, dos que a humidade não apaga.
    - Caramba, Antonio José Bolívar, deixaste sua excelência sem pio. Não te conhecia como detective. Humilhaste o diante de todos, e bem o merece. Espero que ainda um dia os jíbaros lhe espetem um dardo.
    - É a mulher que o vai matar. Está a acumular ódio, mas ainda não juntou o suficiente. É coisa que leva tempo.
    - Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia.
    Trouxe te dois livros.
    Os olhos do velho iluminaram se.
    - De amor?
    O dentista fez que sim.
    Antonio José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia o de leitura.
    - São tristes? perguntava o velho.
    - De chorar rios de lágrimas garantia o dentista.
    - Com pessoas que se amam mesmo?
    - Como ninguém nunca amou.
    - Sofrem muito?
    - Eu quase não consegui suportar respondia o dentista.
    Mas o doutor Rubicundo Loachamín não lia os romances.
    Quando o velho Lhe pediu o favor de lhe trazer leitura, indicando muito claramente as suas preferências sofrimentos, amores infelizes e desfechos felizes , o dentista sentiu que estava perante um encargo difícil de cumprir.
    Pensava em como seria ridículo entrar numa livraria de
    Guaiaquil e pedir: "Dê me um romance bem triste, com muito sofrimento por causa do amor e com um final feliz". Haviam de tomá lo por um velho maricas, e a solução veio ele a encontrá la inesperadamente num bordel da marginal.
    O dentista gostava das pretas, primeiro porque eram capazes de dizer palavras que punham de pé um pugilista KO e, segundo, porque não suavam na cama.
    Uma tarde, estava ele a retouçar com Josefina, uma esmeraldina de pele brilhante como a de um tambor, quando viu um lote de livros arrumados em cima da cómoda.
    - Tu lês? perguntou.
    - Leio. Mas devagarinho respondeu a mulher.
    - E quais são os livros de que gostas mais?
    - Os romances de amor respondeu Josefina, acrescentando os mesmos gostos de Antonio José Bolívar. A partir dessa tarde
    Josefina foi alternando os seus deveres de dama de companhia, com os de crítico literário e, de seis em seis meses, seleccionava os dois romances que, na sua opinião, proporcionavam maiores sofrimentos, os mesmos que mais tarde
    Antonio José Bolívar Proaño lia na solidão da sua choça diante do rio Nangaritza.
    O velho recebeu os livros, examinou as capas e declarou que gostava.
    Naquele momento estavam a subir o caixão para bordo e o administrador vigiava a manobra. Ao ver o dentista, ordenou a um homem que se aproximasse dele.
    - O administrador manda dizer que não se esqueça dos impostos.
    O dentista entregou lhe as notas já preparadas, acrescentando:
    - Como é que Lhe passa pela cabeça? Diz Lhe que eu sou um bom cidadão.
    O homem regressou para junto do administrador. O gordo recebeu as notas, fê las desaparecer numa algibeira e cumprimentou o dentista levando uma das mãos à testa.
    - Também a mim me agarrou com isso dos impostos comentou o velho.
    - Mordidelas. Os governos vivem das dentadas traiçoeiras que aplicam aos cidadãos. Já não é mal de todo quando são dadas por um cachorrinho.
    Fumaram e beberam mais umas goladas enquanto viam passar a eternidade verde do rio.
    - Vejo te pensativo, Antonio José Bolívar. Solta.
    - Tem razão. Não me agrada nada este caso. Tenho a certeza de que a Babosa está a pensar numa batida e me vai chamar. Não me agrada. Viu a ferida? Uma unhada limpa. O animal é grande e as garras devem medir uns cinco centímetros. Um bicho assim, por muito esfomeado que esteja, não deixa de ser vigoroso. Além disso, vêm aí as chuvas. Apagam se os rastos e a fome torna os mais astutos.
    - Podes negar te a participar na caçada. Já estás velho para essas andanças.
    - Não pense nisso. às vezes dá me vontade de casar outra vez. Até pode acontecer um destes dias surpreendê lo pedindo lhe que seja meu padrinho.
    - Aqui entre nós, quantos anos tens, Antonio José Bolívar?
    - Tenho de mais. Uns sessenta segundo os papéis, mas, se levarmos em conta que me inscreveram quando eu já andava, digamos que vou para os setenta.
    As badaladas do Sucre anunciando a partida obrigaram nos a despedir se.
    O velho permaneceu no cais até que o barco desapareceu tragado por uma curva de rio. Decidiu então que naquele dia não falaria com mais ninguém, e tirou a dentadura postiça, embrulhou a num lenço e, apertando os livros junto ao peito, dirigiu se para a sua choça.


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