Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [Capítulo primeiro]Luís Sepúlveda - O velho que lia romances de amor

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    IsaíasLetra
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    [Capítulo primeiro]Luís Sepúlveda - O velho que lia romances de amor

    Mensagem  IsaíasLetra em Qua Mar 10, 2010 2:23 am

    O céu era uma inchada barriga de burro, pendendo ameaçadora a escassos palmos das cabeças. O vento morno e pegajoso varria algumas folhas soltas e sacudia com violência as bananeiras raquíticas que ornamentavam a frontaria da administração da circunscrição.
    Os poucos habitantes de El Idilio, mais um punhado de aventureiros chegados das redondezas, estavam reunidos no cais, esperando a vez de se sentar na cadeira portátil do doutor Rubicundo Loachamín, o dentista, que aliviava as dores dos seus pacientes graças a uma curiosa espécie de anestesia oral.
    - Dói te? perguntava ele.
    Os pacientes, aferrados aos braços da cadeira, respondiam abrindo desmesuradamente os olhos e a suar em bica.
    Alguns pretendiam retirar das respectivas bocas as mãos insolentes do dentista e responder lhe insultando o como ele merecia, mas as suas intenções esbarravam nos braços fortes e na voz autoritária do odontologista.
    - Quieto, carago! Tira as mãos! Já sei que dói. E quem é que tem a culpa? Quem? Eu? Quem tem a culpa é o Governo! Mete isso bem na moleirinha. O Governo é que tem a culpa de teres os dentes podres. O Governo é que tem a culpa de te doer.
    Então os aflitos concordavam fechando os olhos ou com leves movimentos da cabeça.
    O doutor Loachamín odiava o Governo. Todo e qualquer governo. Filho ilegítimo de um emigrante ibérico, dele herdou um enorme conflito com tudo o que soasse a autoridade, mas os motivos desse ódio perdeu os no meio de uma pândega qualquer de juventude, de tal modo que o seu palavreado de anarquista se transformou numa espécie de verruga moral que o tornava simpático.
    Vociferava contra os governos que se sucediam da mesma maneira que vociferava contra os gringos que vinham às vezes das instalações petrolíferas do Coca, esses forasteiros desavergonhados que fotografavam sem autorização as bocas abertas dos seus pacientes.
    Ali muito próximo, a reduzida tripulação do Sucre carregava cachos de bananas verdes e fardos de café em grão.
    De um dos lados do cais amontoavam se as caixas de cerveja, de aguardente Frontera, de sal, e as garrafas de gás que tinham desembarcado cedinho.
    O Sucre largaria logo que o dentista acabasse de reparar queixadas, iria subindo as águas do rio Nangaritza para desembocar mais tarde no Zamora e, depois de quatro dias de lenta navegação, arribaria ao porto fluvial de El Dorado.
    O barco, um velho caixote flutuante que se movia graças à decisão do seu mestre mecânico, ao esforço dos homens robustos que compunham a sua tripulação e à vontade tísica de um velho motor diesel, só regressaria depois de passada a estação das chuvas, que se anunciava no céu toldado.
    O doutor Rubicundo Loachamín visitava El Idilio duas vezes por ano, exactamente como o funcionário dos Correios, que raramente levou correspondência para qualquer habitante.
    Da sua maleta gasta só saíam papéis oficiais para o administrador da circunscrição, ou os retratos dos governantes de turno, graves e descorados pela humidade.
    As pessoas esperavam a chegada do barco sem outras esperanças além da de verem renovadas as suas provisões de sal, gás, cerveja e aguardente, mas recebiam o dentista com alívio, sobretudo os sobreviventes da malária, cansados de cuspir restos de dentadura e desejosos de ter a boca limpa de lascas, para experimentar uma das próteses arrumadas em cima de um pano arroxeado de indiscutível aspecto cardinalício.
    Enquanto disparatava contra o Governo, o dentista ia lhes limpando as gengivas dos últimos restos de dentes, e a seguir mandava os bochechar com aguardente.
    - Bem, ora vamos lá a ver. Que tal esta?
    - Aperta me. Não posso fechar a boca.
    - Foda se! Que tipos tão delicados! Vamos lá, experimenta outra.
    - Fica me solta. Se espirrar, cai me.
    - E para que é que te hás de constipar, meu pentelho? Abre a boca.
    E obedeciam lhe. Depois de experimentar diversas dentaduras encontravam a mais cómoda e discutiam o preço, enquanto o dentista desinfectava as restantes mergulhando as numa panela com cloro fervido.
    A cadeira portátil do doutor Rubicundo Loachamín era uma verdadeira instituição para os habitantes das margens dos rios
    Zamora, Yacuambi e Nangaritza.
    Tratava se, na realidade, de uma antiga cadeira de barbeiro com um pedestal e os bordos esmaltados de branco.
    A cadeira portátil precisava da força do mestre e dos tripulantes do Sucre para a levantarem, e era assente agarrada pelas pernas em cima de um estrado de um metro quadrado a que o dentista chamava “a consulta”.
    - Na consulta mando eu, carago. Aqui faz se o que eu digo.
    Quando eu descer daqui podem chamar me arranca queixais, fura queixos, apalpa línguas, o que quiserem, e até é possível que aceite uma golada que me ofereçam.
    Os que estavam à espera de vez mostravam caras de sofrimento extremo, e os que passavam pelas pinças extractoras também não tinham melhor cara.
    As únicas personagens sorridentes nas imediações da consulta eram os jíbaros a olhar, acocorados.
    Os jíbaros. Indígenas rejeitados pelo seu próprio povo, o xuar, que os considerava envilecidos e degenerados com os costumes dos “apaches”, dos brancos.
    Os jíbaros, vestidos com andrajos brancos, aceitavam sem protestos a alcunha nome de campónios impingida pelos conquistadores espanhóis.
    Havia uma enorme diferença entre um xuar altivo e orgulhoso, conhecedor das secretas regiões amazónicas, e um jíbaro como aqueles que estavam reunidos no cais de El Idilio à espera de um resto de álcool.
    Os jíbaros sorriam, mostrando os dentes pontiagudos, afiados como pedras de rio.
    - E vocês? Para que diabos é que estão para aí a olhar?
    Ainda um dia me hão de cair nas mãos, seus macacos ameaçava os o dentista.
    Sentindo que ele estava a falar deles, os jíbaros respondiam felizes.
    - Jíbaro bons dentes tendo. Jíbaro muita carne de macaco comendo.
    às vezes um paciente soltava um grito que espantava os pássaros, e afastava as pinças com uma palmada, enquanto levava a mão livre ao punho do machete.
    - Vê lá se te portas como um homem, minha besta. Eu já sei que dói e disse te de quem é a culpa. E depois vens me com bravatas. Senta te quietinho e mostra que os tens no sítio.
    - É que me está a arrancar a alma, doutor. Deixe me primeiro beber uma golada.
    O dentista suspirou depois de atender o último sofredor.
    Embrulhou as próteses que não achavam interessados no pano cardinalício e, enquanto desinfectava os instrumentos, viu passar a canoa de um xuar.
    O indígena remava compassadamente, de pé, à popa da esguia embarcação. Ao chegar junto do Sucre deu uma série de remadelas que o puseram colado ao barco.
    Assomou à borda a figura entediada do mestre. O xuar estava a explicar lhe qualquer coisa, gesticulando com todo o corpo e cuspindo constantemente.
    O dentista acabou de secar os instrumentos e arrumou os num estojo de cabedal. Depois, pegou no recipiente com os dentes arrancados e atirou os à água.
    O mestre e o xuar passaram a seu lado a caminho da administração.
    - Temos que esperar, doutor. Trazem um gringo morto.
    A notícia não lhe agradou. O Sucre era um traste incómodo, sobretudo durante as viagens de regresso, com os flancos carregados de banana verde e café tardio, meio podre.
    Se desatava a chover antes de tempo, o que parece que ia acontecer, já que o barco navegava com uma semana de atraso, devido a diversas avarias, tinham então que tapar a carga, os passageiros e a tripulação debaixo de uma lona, sem espaço para pendurar as redes de dormir, e se a tudo isso se juntasse um morto a viagem seria duplamente incómoda.
    O dentista ajudou a cadeira portátil a subir para bordo e a seguir dirigiu se para uma das extremidades do cais. Lá estava à sua espera Antonio José Bolívar Proaño, um velho de corpo seco que não parecia importar se com o facto de tanto carregar com a alcunha de prócere.
    - Ainda não morreste, Antonio José Bolívar?
    Antes de responder, o velho cheirou os sovacos.
    - Parece que não. Ainda não deito mau cheiro. E o senhor?
    - Como vão os teus dentes?
    - Tenho os aqui respondeu o velho, levando uma mão ao bolso. Abriu um lenço descorado e mostrou lhe a prótese.
    - Então porque é que não os usas, velho estúpido?
    - Já os vou pôr. Não estava nem a comer nem a falar. Para que é que havia de gastar isto?
    O velho colocou a dentadura, deu estalos com a língua, cuspiu generosamente e ofereceu lhe a garrafa de Frontera.
    - Vá lá. Acho que mereci uma golada.
    - Olhe que sim. Hoje arrancou vinte e sete dentes inteiros e um montão de pedaços, mas não ultrapassou a sua marca.
    - Continuas a ter em dia a minha conta?
    - Para isso é que servem os amigos. Para celebrar os dotes do outro. Dantes era melhor, não acha? Quando ainda vinham colonos jovens. Lembra se daquele matarroano, daquele que deixou arrancar todos os dentes para ganhar uma aposta?
    O doutor Rubicundo Loachamín inclinou a cabeça para pôr as recordações em ordem, e assim chegou à imagem do homem, não muito novo e vestido à rústica. Todo de branco, descalço, mas com esporas de prata.
    O dito matarroano chegou à consulta acompanhado de uma vintena de indivíduos, todos muito bêbedos. Eram pesquisadores de oiro sem eira nem beira. Peregrinos, como lhes chamavam, e tanto Lhes dava encontrarem oiro nos rios como nos sacos do próximo. O matarroano deixou se cair na cadeira e olhou o com uma expressão apatetada.
    - Ora diz lá.
    - Tiras mos todos. Um por um, e vais mos pondo aqui, em cima da mesa.
    - Abre a boca.
    O homem obedeceu e o dentista verificou que, juntamente com os queixais em ruínas, ainda lhe restavam muitos dentes, alguns furados e outros intactos.
    - Ainda tens um bom par deles. Tens dinheiro para tantas extracções?
    O homem abandonou a expressão apatetada.
    - Dá se o caso, doutor, que os amigos aqui presentes não acreditam em mim quando lhes digo que sou muito homem. Dá se o caso que eu lhes disse que deixo que me arranquem todos os dentes, um por um, sem me queixar. Dá se o caso que apostámos, e o senhor e eu dividiremos os ganhos a meias.
    - Ao segundo que te arranquem já tu estarás todo borrado e a chamar pela mãezinha gritou um do grupo, apoiado pelos outros com sonoras gargalhadas.
    - É melhor ires emborcar mais umas goladas e pensares nisso.
    Eu não me presto a fanfarronadas disse o dentista.
    - Dá se o caso, doutor, que, se o senhor não me permitir ganhar a aposta, lhe corto a cabeça com isto que aqui tenho.
    Brilharam os olhos do matarroano enquanto acariciava o punho do machete.
    E assim seguiu a aposta.
    O homem abriu a boca e o dentista fez uma nova contagem.
    Eram quinze dentes, e, quando ele o disse, o que lançara o desafio formou uma fila de quinze pepitas de oiro em cima do pano cardinalício das próteses. Uma por cada dente, e os apostadores, a favor ou contra, cobriram as apostas com outras pepitas douradas. O número aumentava consideravelmente a partir da quinta.
    O rústico deixou o arrancar os primeiros sete dentes sem mexer um músculo. Não se ouvia uma mosca, e, quando Lhe arrancou o oitavo, foi acometido por uma hemorragia que em segundos Lhe encheu a boca de sangue. O homem não conseguia falar, mas fez um sinal de pausa.
    Cuspiu várias vezes formando grumos de sangue em cima do estrado e bebeu uma longa golada que o fez revolver se de dor na cadeira, mas não se queixou, e, depois de cuspir outra vez, ordenou lhe com outro sinal que continuasse.
    No final da carnificina, desdentado e de cara inchada até às orelhas, o matarroano mostrou uma expressão de triunfo horripilante ao dividir os ganhos com o dentista.
    - Sim. Aqueles é que eram tempos murmurou o doutor
    Loachamín, bebendo uma longa golada.
    A aguardente de cana queimou lhe a garganta e devolveu a garrafa com uma careta.
    - Não faça cara feia, doutor. Olhe que isto mata os bichos das tripas disse Antonio José Bolívar, mas não pôde continuar.
    Aproximavam se duas canoas, e de uma delas emergia a cabeça jacente de um homem loiro.


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