Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [Ondjaki - Os da minha rua]A professora genoveva esteve cá

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    IsaíasLetra
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    [Ondjaki - Os da minha rua]A professora genoveva esteve cá

    Mensagem  IsaíasLetra em Dom Mar 28, 2010 10:12 am

    Depois do almoço o pai e a mãe sempre descansavam nem que fosse um bocadinho. O meu pai, logo a seguir à refeição, gostava de comer qualquer coisa doce e depois ia dormir um bocadinho. A minha mãe, que dava aulas à tarde, também tinha esse hábito de adormecer ali no sofá, nem que fosse só por quinze minutos.
    Mas era sábado, não tínhamos ido à praia. O meu pai e a minha mãe foram dormir juntos. Eu e a mana Tchi ficámos na sala, a jiboiar, à espera que acontecesse alguma coisa. E aconteceu mesmo: tocaram à campainha.
    Espreitei pela cortina da sala. Era a professora Genoveva, colega da minha mãe na escola onde ela dava aulas. Fazia muito calor. A professora Genoveva transpirava muito e tinha uma cara preocupada.
    -Não vou abrir – a minha irmã já tinha gritado.
    -Nem eu! – eu recusei a seguir
    -Mas eu pedi primeiro.
    A mana Tchi ficou deitadinha no sofá, a rir. Eu tinha que ir falar com a professora Genoveva. Abri a porta do corredor, e um bafo quente tocou-me na cara. Olhei e vi bem, era mesmo ela. Peguei na chave, aproximei-me do portão pequenino. Abri a porta.
    -Boa tarde, camarada professora.
    -Tás bom, filho? – ela perguntou, e passou a mão toda suada no meu queixo, como eu não gostava que ninguém fizesse.
    -Sim, tudo bem.
    -A mãe? – ela perguntou devagarinho.
    -Ó filho, não podes ir chamar a mãe? Eu preciso muito de falar com ela.
    Isso de «eu preciso muito de falar com ela», era uma frase que eu já conhecia de outras pessoas. Mesmo eu já tinha sido ralhado muitas vezes pelo meu pai, só por ter-lhe acordado na conta de umas pessoas chatas que tinham vindo lhe incomodar . Uma vez eu fui acordar o meu pai, «pai, tá lá baixo o camarada João, veio pedir cigarros», e o meu pai disse assim meio a dormir «cigarros, a bardamerda!», mas não podia dizer isso ao camarada João, então menti que o meu pai estava maldisposto e eu não tinha conseguido lhe acordar. Também às vezes a minha mãe dizia para eu ir de novo até ao portão pequenino dizer que a mãe estava a lavar a cabeça e ainda ia demorar uns quarenta e cinco minutos. Mas naquele sábado eu nem precisava de inventar nenhuma estória.
    -Professora Genoveva, eu não posso acordar a minha mãe.
    -Ó filho, mas eu preciso mesmo de falar com ela. – Mas ela foi-se deitar porque tava muito incomodada.
    -Ah sim?
    -Sim, é que ela hoje acordou com a menstruação, tava cheia de dores.
    A professora Genoveva fez uma cara muito estranha, parecia que tinha dores de menstruação também.
    Limpou o suor da testa, do queixo, mas não adiantava muito porque continuava toda molhada.
    -Hoje de manha a minha mãe acordou cheia de dores. A professora sabe como é. – encostei-me no portão -, quando aparece a menstruação, depende muito das mulheres, mas algumas têm muitas dores. Tomou dois comprimidos para as dores antes do almoço, mas quando acabou de almoçar ainda tinha dores e disse-me que se ia deitar a ver se lhe passava a moinha.
    A professora Genoveva transpirava muito. Olhava para mim com os olhos muito abertos, não sei o que lhe estava a acontecer. Fiquei um bocadinho preocupado.
    -Quer um copo de água, camarada professora? – Perguntei.
    -Não, filho – ela gaguejou. – diz só à mãe, quando ela acordar, que a professora Genoveva esteve cá.
    -Tá bem, eu digo. Não leve a mal não ir acordar a mãe, mas sabe como é, estas dores da menstruação, é sempre assim, a minha mãe por acaso não fica muitos dias com a menstruação, é dois ou três dias, mas o primeiro dia é sempre o pior, mesmo com os comprimidos…
    -Sim, filho – ela gaguejou mais. – Dá as melhoras à mãe.
    -Sim, mas não se preocupe, isso depois passa, é normal nas mulheres.
    A professora Genoveva parecia estar a sentir mal. A boca dela não fechava e desapareceu rápido como se, de repente, não quisesse mais falar comigo.
    Voltei para dentro. A mana Tchi perguntou o que eu tinha estado ali a falar com ela e eu contei.
    -Pois é, a mãe no primeiro dia de menstruação fica sempre cheia de dores.
    -Sim, eu sei, eu disse-lhe isso mesmo, mas ela parece que não acreditou.
    Ficamos ali um bocadinho a ver mais televisão. Estava a dar aquelas cenas do circo chinês que já tínhamos visto umas quinhentas vezes. Acabámos por adormecer.
    O telefone tocou, e nós dois, bem ensonados, quase não conseguíamos atender. Quando consegui lá chegar e levantei o auscultador, a minha mãe já tinha atendido, e falava com a professora Genoveva. Então desliguei o telefone cá de baixo. Passado um bocadinho a minha mãe desceu. Já estava acordada mesmo. A minha mãe deu um beijinho à mana Tchi , depois veio me fazer festinhas.
    -A Genoveva ligou-me assustada, diz que tu lhe deste uma lição sobre a menstruação – a minha mãe ria.
    -Ela esteve aqui e queria que eu te acordasse. Eu expliquei que tavas incomodada.
    -Eu sei , filho, eu percebi.
    -Mas também, ela escusava de te ligar para te contar isso tudo. Assim acordou-te à mesma!
    -Não faz mal.
    Ficámos a ver televisão. O ar condicionado funcionava mal. Fazia muito calor. O meu pai desceu depois. Antes de se aproximar abriu o armário e comeu um chocolate pequenino. A minha mãe passou a mão na barriga, coitada, devia estar com cólicas. Dei-lhe um beijinho e fiquei ali, quieto, perto dela, a fazer-lhe festinhas também.
    Ficámos o resto da tarde na sala, a jiboiar. Era sábado e não tínhamos ido a praia.


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