Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [ondjaki] Jerri Quan e os beijinhos na boca

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    IsaíasLetra
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    [ondjaki] Jerri Quan e os beijinhos na boca

    Mensagem  IsaíasLetra em Qua Mar 10, 2010 2:21 pm

    O Mateus gostava muito de vir à nossa casa – fim da tarde – porque a Irene muitas vezes estava lá à espera dele. Ouvi muitas vezes outras pessoas dizerem que a minha mãe era boa pessoa e a Irene também dizia «a tua mãe é um amor», isso porque a minha mãe deixava a Irene ficar na sala do meio com as portas fechadas a dar beijinhos na boca do Mateus.
    Eu não conseguia entender aquilo muito bem mas parece que o pai da Irene não gostava que ela desse beijinhos na boca do Mateus. Ouvi dizer que o pai dela não gostava de negros mas eu até via muitos negros lá na casa dele a beberem e a comerem com ele e todos a rirem juntos. Não sei. Se calhar um rapaz negro a dar beijinhos na boca da Irene já era uma coisa diferente.
    Quando Mateus chegou eu já tinha vestido as bermudas azuis e uma camisa branca entalada. O cinto também. A minha mãe tinha me obrigado a tomar banho, cortar as unhas e esfregar bem os pés mas ela era muito simpática, não me obrigava a pentear o cabelo e tinha-se esquecido das orelhas. O Mateus entrou, mexeu-me no cabelo como eu não gostava que fizessem e depois cumprimentou o meu pai.
    -Queres ir ali para a sala do meio, Mateus? – Todo mundo riu, ele ficou bem atrapalhado. A Irene demorou para chegar mas depois apareceu. Ela estava bem bonita com um vestido branco daqueles que o vento gosta de levantar nos filmes.
    Saímos os três. A pé. Ainda não estava escuro, subimos pela zona verde, demos encontro com a Maternidade onde eu nasci, depois o Hospital Militar e o Largo 1º de Maio.
    -Sabes que eu costumo vir aqui nos comícios, Irene? – ela disse que sim só para me despachar, ia toda contente de mãos dadas com o Mateus, davam beijinhos na boca e riam toda hora. Eu ainda não sabia qual era a surpresa.
    Atravessámos um pequeno descampado e vi uma espécie de casa bem grande toda pintada duma cor tipo Pantera Cor-de-Rosa. Na entrada havia bué de gente a imitar assim uns pontapés de karaté e na parede um poster bem grande dum chinês bem pequenino a bater em bué de muadiês. Li devagar a soletrar numa dificuldade de palavras comprimidas: «A grande desfora», a Irene riu mas o Mateus não, e falou com calma:
    -É «desforra», tem dois erres. Então, já sabes ler? – perguntou, enquanto comprava bilhetes da primeira vez que eles dois, de mãos dadas, me levarem a um cinema verdadeiro.
    Chamava-se Cine Atlântico e era a maior sala com a maior quantidade de cadeiras e uma tanta gente a fazer barulho que nunca mais o filme começava. Eu olhava aquele mundo todo novo: o cinema sem paredes de lado, as árvores e as andorinhas, uma poucas nuvens no céu bem escuro de quase-noite, e a tela toda branca se acendeu de luz brilhante antes mesmo de as luzes se apagarem e aquela gente a fazer um silêncio de espera e logo depois de assobiar forte para a fuga geral dos passarinhos quando todos começaram a gritar «Jerri Quan!, Jerri Quan!». Bateram palmas e eu também.
    Olhei para o lado e a Irene tinha a cabeça dela no ombro do Mateus, os dois olhavam o ecrã de mil cores com letras numa língua suspeita tipo os desenhos da minha irmã caçula, e em baixo a tradução: « A Grande Desforra». O Mateus, no meio dos assobios e gritaria, olhou para mim, e eu gritei também «a grande desforra», com dois erres bem carregados, «agora disse bem, né?» e ele fez que sim com a cabeça.
    O filme começou e era bem bom. Afinal Jerri Quan era o nome do artista e ele batia male!, ninguém lhe aguentava, o nome do bandido careca era Kisse e quando soltaram o tio do Jerri, depois da corrida de patins, o Kisse levou só bué de pontapés na cabeça até desmaiar. Vi o filme quase todo sem olhar para os lados, nunca tinha visto um ecrã assim tão grande e o som também era cuiante, única coisa foi que quando deram aquelas letras no fim senti que tinha sido bem ferrado pelos mosquitos.
    Voltámos para casa. Fui o caminho todo a imitar os golpes e pontapés do Jerri Quan na ultima luta que ele até deu beijinho na careca do Kisse antes de ele cair já tipo bêbado sem forças. O Mateus só ria.
    Entrei em casa, fui contar o filme às minhas irmãs e aumentei já lá o que era meu. O Mateus foi com a Irene para a sala do meio. A minha mãe mandou-me ir lá levar dois copos de sumo tang. Quando entrei eles tavam a dar aqueles beijinhos na boca bem demorados. O telefone tocou. Saí a correr, fui atender.
    A minha mãe ralhou-me bué depois desse telefonema, mas não foi mesmo de propósito. É que nós, as crianças, gostamos de responder só assim sem pensar muito no que afinal vamos dizer. O pai de Irene perguntou onde eu tinha ido. Eu disse a verdade. Se tinha gostado. Eu disse que era muito bonito e que muitas pessoas já tinham lido sobre aquilo nalgum jornal porque falavam das cenas antes de elas acontecerem. Ele também perguntou se eu tinha ido com os meus pais. Eu disse que não. Então o pai da Irene perguntou com quem eu tinha ido ao Cine Atlântico.
    E eu disse.


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