Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [Capítulo oitavo]Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

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    IsaíasLetra
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    [Capítulo oitavo]Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

    Mensagem  IsaíasLetra em Qua Mar 10, 2010 2:47 am

    Ocuparam o resto da tarde com os mortos.
    Embrulharam nos na rede de Miranda, virados um para o outro, para lhes evitar que entrassem na eternidade como estranhos, e depois coseram a mortalha e ataram lhe quatro grandes pedras nas pontas.
    Arrastaram o fardo para um lameiro ali perto, levantaram no, oscilaram tomando balanço e atiraram no para o meio dos juncos e das rosas de pântano. O volume mergulhou gorgolejando, arrastando na sua descida vegetais e sapos surpreendidos.
    Regressaram à cantina quando a escuridão se apossou da floresta e o gordo organizou as guardas.
    Iriam manter se de vela dois homens, que seriam rendidos às quatro horas por outro par. Ele dormiria sem interrupções até ao amanhecer.
    Antes de adormecerem cozinharam arroz con fatias de banana e, depois de cear, Antonio José Bolívar limpou a dentadura postiça antes de a guardar no lenço. Os seus companheiros viram no hesitar por um momento e surpreenderam se ao vê lo pô la.
    Como fazia parte do primeiro turno, o velho apropriou se do candeeiro de petróleo. O seu companheiro de vigia, perplexo, via o percorrer com a lupa os sinais arrumados no livro.
    - É verdade que sabes ler, compadre?
    - Alguma coisa.
    - E que é que estás a ler?
    - Um romance. Mas cala te. Se falas, a chama mexe se e mexem se me as letras.
    O outro afastou se para não estorvar, mas era tal a atenção que o velho prestava ao livro que não suportou ficar se à margem.
    - De que é que trata?
    - Do amor.
    Perante a resposta do velho, o outro aproximou se com renovado interesse.
    - Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
    O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
    - Não. Trata se do outro amor. Do que dói.
    O homem sentiu se decepcionado. Encolheu os ombros e afastou se. Ostensivamente, emborcou uma longa golada, acendeu um charuto e começou a afiar a lâmina do machete.
    Passada a pedra, cuspia no metal, tornava a passar e avaliava o fio com a polpa de um dedo.
    O velho continuava na sua, sem se deixar importunar pelo ruído áspero da pedra contra o aço, falando entre dentes como se estivesse a rezar.
    - Anda, lê um bocadinho mais alto.
    - A sério? Interessa te?
    - Digamos que sim. Uma vez fui ao cinema, em Loja, e vi um filme mexicano, de amor. Nem lhe conto, compadre. As lágrimas que me caíam.
    - Então tenho que te ler desde o princípio, para saberes quem são os bons e quem são os maus.
    Antonio José Bolívar regressou à primeira página do livro.
    Tinha a lido várias vezes e sabia a de cor.
    "Paul beijou a ardorosamente enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos.”
    - Tão rápido não, compadre disse uma voz.
    O velho ergueu os olhos. Estava rodeado de três homens. O administrador descansava, afastado dali, estendido sobre um monte de fardos.
    - Há palavras que não conheço ponderou o que tinha falado.
    - Tu percebes todas? perguntou outro.
    O velho entregou se então a uma explicação, à sua maneira, dos termos desconhecidos.
    Aquilo do gondoleiro, da gôndola, e de beijar ardorosamente, ficou semi esclarecido depois de um par de horas de troca de opiniões salpicadas de anedotas picantes. Mas o mistério de uma cidade em que as pessoas precisam de barcos para andar de um lado para o outro, esse não percebiam de maneira nenhuma.
    - Sabe se lá se não terão muita chuva.
    - Ou rios que saem do leito.
    - Hão de viver mais molhados do que nós.
    - Imaginem. Vai uma pessoa beber uns goles, ou lembra se de sair para vender águas fora de casa, e que vê ele? Os vizinhos a olhar com caras de peixe.
    Os homens riam, fumavam, bebiam. O administrador revolveu se incomodado na sua cama.
    - Fiquem sabendo que Veneza é uma cidade construída numa lagoa. E é em Itália gritou do seu canto de insone.
    - Pois! Ou seja, as casas flutuam como jangadas observou outro.
    - Se é assim, então para que são os botes? Podem viajar com as casas, como barcos opinou outro.
    - Ai que bestas! São casas firmes. Até há palácios, catedrais, castelos, pontes, ruas para as pessoas. Todos os edifícios têm alicerces de pedra declarou o gordo.
    - E como é que sabe? Esteve lá? perguntou o velho.
    - Não. Mas sou instruído. Por alguma razão sou administrador.
    A explicação do gordo complicava as coisas.
    - Se bem o compreendi, excelência, essa gente tem pedras que flutuam, como as pedras pomes devem ser, mas, ao fim e ao cabo, se uma pessoa construir uma casa com pedras pomes, ela não flutua, não, senhor. Tenho a certeza que lhe metem tábuas por baixo.
    O administrador pôs as mãos na cabeça.
    - Ai que bestas! Ai que bestas! Pensem o que quiserem. Vocês foram contagiados pela mentalidade selvagem. Nem Cristo vos consegue arrancar à vossa bestialidade. Ah, uma coisa: vão cortar com isso de me chamarem excelência. Desde que ouviram o dentista agarraram a palavrinha.
    - E como quer que lhe chamemos? O juiz tem de ser tratado por vossoria; o padre por eminência; e ao senhor, temos de o tratar de alguma maneira, excelência.
    O gordo ia acrescentar qualquer coisa, mas foi interrompido por um gesto do velho. Os homens compreenderam, deitaram a mão às armas, apagaram os candeeiros e esperaram.
    Lá de fora chegou o ténue ruído de um corpo movendo se furtivamente. Os passos não produziam sons, mas aquele corpo agarrava se aos arbustos baixos e às plantas. Ao fazê lo, interrompia o jorrar da água e, quando avançava, a água acumulada caía com renovada abundância.
    O corpo em movimento traçava um semicírculo em torno da choça do cantineiro. O administrador, de gatas, aproximou se do velho.
    - É o bicho?
    - É. E sentiu nos o cheiro.
    O gordo pôs se de pé de repente. Apesar da escuridão, alcançou a porta e esvaziou o revólver, disparando às cegas para a mata.
    Os homens acenderam o candeeiro. Abanavam as cabeças sem proferir comentários e olhavam para o administrador que recarregava a arma.
    - Foi se me por culpa de vocês. Por passarem a noite a falar de parvoíces como uns maricas, em vez de cumprirem os turnos de guarda.
    - Como se nota que o senhor é instruído, excelência. O bicho tinha tudo contra ele. Era uma questão de o deixar passear até calcular a que distância estava. Mais dois passeios e tê lo íamos tido ao alcance de tiro.
    - Pois é. Vocês sabem tudo. Se calhar acertei lhe justificou se o gordo.
    - Então vá ver, se quiser. E se for atacado por um mosquito, não o mate aos tiros porque nos vai espantar o sono.
    Ao amanhecer, aproveitando a luz mortiça filtrada pelo tecto da selva, saíram a examinar as proximidades. A chuva não apagava o rasto de plantas esmagadas deixado pelo animal. Não se viam mostras de sangue na folhagem, e as pegadas perdiam se na espessura da mata.
    Regressaram à choça e beberam café preto.
    - O que menos me agrada é que o bicho anda a rondar a menos de cinco quilómetros de El Idilio. Quanto tempo demora uma onça a fazer essa distância? perguntou o administrador.
    - Menos que nós. Tem quatro patas, sabe saltar por cima dos charcos e não usa botas respondeu o velho.
    O administrador compreendeu que já se tinha desacreditado demasiadamente perante os homens. Permanecer mais tempo ao pé do velho agora mais destemido com os seus sarcasmos só conseguiria aumentar a sua fama de inútil, e talvez de cobarde.
    Encontrou uma saída que parecia lógica e que ao mesmo tempo o cobria.
    - Façamos um acordo, Antonio José Bolívar. Tu és o mais veterano na mata. Conhece la melhor que a ti mesmo. Nós só te servimos de estorvo, velho. Segue lhe o rasto e mata a. O
    Estado paga te cinco mil sucres se o conseguires. Ficas aqui e fazes como te apetecer. Entretanto, nós regressamos para proteger a povoação. Cinco mil sucres. Que me dizes?
    O velho escutou sem pestanejar a proposta do gordo.
    Na realidade, a única coisa verdadeiramente sensata que havia a fazer era regressar a El Idilio. O animal, à caça do homem, não tardaria a dirigir se à povoação, e lá seria fácil estender lhe uma armadilha. Inevitavelmente, a fêmea procuraria novas vítimas e era estúpido disputar lhe o seu próprio território.
    O administrador desejava desembaraçar se dele. Com as suas respostas aguçadas feria lhe os princípios de bicho autoritário, e encontrara assim uma fórmula elegante de deixar de o ter às costas.
    O velho não se importava por aí além com o que pensasse o gordo suado. Também não lhe interessava a recompensa oferecida. Outras ideias lhe viajavam pela mente.
    Algo lhe dizia que o animal não estava longe. Talvez os estivesse a ver naquele mesmo momento, e só começava a perguntar a si mesmo porque é que nenhuma das vítimas o incomodava. Possivelmente, a sua vida passada entre os xuar permitia lhe ver um acto de justiça naquelas mortes. Um cruento mas iniludível olho por olho.
    O gringo tinha Lhe assassinado as crias, e quem sabe se também o macho. Por outro lado, o comportamento do animal permitia lhe intuir que procurava a morte ao aproximar se perigosamente dos homens, como fizera na última noite e, antes, ao liquidar o Plascencio e o Miranda.
    Um mandato desconhecido ditava lhe que matá la era um imprescindível acto de piedade, mas não daquela piedade prodigalizada pelos que estão em condições de perdoar e de a oferecer. O animal procurava uma ocasião de morrer frente a frente, num duelo que nem o administrador nem nenhum dos homens poderiam compreender.
    - Que respondes, velho? repetiu o administrador.
    - De acordo. Mas deixam me charutos, fósforos e outra dose de cartuchos.
    O administrador respirou aliviado ao ouvir a aceitação e entregou lhe o que ele pedia.
    O grupo não demorou muito a preparar os pormenores do regresso. Despediram se, e Antonio José Bolívar entregou se ao trabalho de consolidar a porta e a janela da choça.
    A meio da tarde escureceu, e à luz taciturna do candeeiro retomou a leitura enquanto esperava rodeado dos ruídos da água deslizando entre a folhagem.
    O velho repassava as páginas desde o início.
    Estava incomodado por não conseguir apropriar se da história. Repetia as frases memorizadas e saíam lhe da boca desprovidas de sentido. Os seus pensamentos viajavam em todas as direcções em busca de um ponto determinado onde se detivesse.
    - Se calhar tenho medo.
    Pensou num provérbio xuar que aconselhava que nos escondêssemos do medo, e apagou o candeeiro. Na escuridão, estendeu se em cima dos fardos com a espingarda preparada descansando em cima do peito, e deixou que os pensamentos se aquietassem como as pedras ao tocarem o leito do rio.
    Vamos a ver, Antonio José Bolívar, que se passa contigo?
    Não é a primeira vez que enfrentas uma fera enfurecida. Que é que te impacienta? A espera? Preferias vê la aparecer agora mesmo derrubando a porta e ter um desenlace rápido? Não vai acontecer isso. Sabes que nenhum animal é tão estúpido que invada uma guarida estranha. E porque é que estás tão certo de que a fêmea te procurará precisamente a ti? Não achas que a fera, com toda a inteligência que demonstrou, pode decidir se pelo grupo de homens? Pode segui los e eliminá los um a um antes de chegarem a El Idilio. Sabes que o pode fazer e devias tê los advertido disso, dizer lhes: "Não se separem nem um metro. Não durmam, pernoitem acordados e sempre na margem do rio". Sabes que mesmo assim seria fácil à fera emboscá los, dar o salto, pôr um no chão de gasganete aberto e, antes de os outros recuperarem do pânico, já ela estaria escondida, preparando o ataque seguinte. Achas que a onça te sente um ser igual a ela? Não sejas vaidoso, Antonio José Bolívar.
    Lembra te de que não és um caçador, porque tu mesmo recusaste sempre esse qualificativo, e os felinos seguem o verdadeiro caçador, o cheiro a medo e a pau feito que os caçadores autênticos emanam. Tu não és um caçador. Muitas vezes os habitantes de El Idilio falam de ti chamando te o Caçador, e respondes lhes que isso não é verdade, porque os caçadores matam para vencer um medo que os enlouquece e os apodrece por dentro. Quantas vezes viste aparecer grupos de indivíduos febris, bem armados, que se internavam na floresta. Poucas semanas depois reapareciam com fardos de peles de ursos formigueiros, lontras, ursos do mel, jibóias, lagartos, pequenos gatos bravos, mas nunca com os restos de um verdadeiro contendor como a fêmea por que esperas. Tu viste os embebedar se ao pé das trouxas de peles, para disfarçarem o medo que lhes inspira a certeza de saberem que o inimigo digno os viu, os cheirou e os desprezou na imensidade florestal. É certo que os caçadores são de dia para dia em menor número, porque os animais se internaram para Oriente, atravessando cordilheiras impossíveis, longe, tão longe que a última anaconda vista habita em território brasileiro. Mas tu viste e caçaste anacondas não longe daqui.
    A primeira foi um acto de justiça ou de vingança. Por mais voltas que lhe dês não atinges a diferença. O réptil havia surpreendido o filho de um colono enquanto estava a tomar banho. Tu gostavas do garoto. Não passava dos doze anos e a anaconda deixou o flácido como um saco de água. Lembras te, velho? De canoa, seguiste o rasto até descobrires a praia onde estava a apanhar sol. Então deixaste várias lontras mortas como isco e esperaste. Nesse tempo eras jovem, ágil, e sabias que dessa agilidade dependia não te transformares noutro banquete para a deusa da água. Foi um bom salto. De machete na mão. O corte limpo. A cabeça da serpente caindo na areia, e antes de tocar nela já tu saltavas a proteger te no meio da vegetação baixa, enquanto o réptil se revolvia açoitando o seu corpo vigoroso repetidas vezes.
    Onze ou doze metros de ódio. Onze ou doze metros de pele cor de azeitona parda com anéis negros tentando matar quando já estava morta.
    A segunda foi uma homenagem de gratidão ao feiticeiro xuar que te salvou a vida. Lembras te? Repetiste o truque de deixar isco de carne na praia e esperaste em cima de uma árvore até que a viste sair do rio. Dessa vez foi sem ódio. Olhavas para ela a engolir os roedores enquanto preparavas o dardo, embrulhando a ponta aguçada em teia de aranha, untando o com curare, introduzindo o no tubo da zarabatana, e apontaste procurando a base do crânio.
    O réptil recebeu o dardo, ergueu se elevando quase três quartas partes do corpo, e da árvore onde estavas emboscado viste lhe os olhos amarelos, as pupilas verticais buscando te com um olhar que não te alcançou porque o curare é rápido a actuar.
    Depois veio a cerimónia de a esfolar, andar quinze ou vinte passos enquanto o machete a abria e a carne fria e rosada se lhe impregnava de areia.
    Lembras te, velho? Quando entregaste a pele, os muar declararam que não eras deles, mas que eras dali.
    E também as onças te não são estranhas, só que nunca causaste a morte a um filhote, nem de onça nem de outra espécie qualquer. Só exemplares adultos, como manda a lei xuar. Sabes que as onças são animais estranhos, de comportamento imprevisível. Não são tão fortes como os jaguares, mas em contrapartida manifestam uma inteligência refinada.
    Se procurar a pista é excessivamente fácil e te faz sentir cheio de confiança, isso quer dizer que a onça está de olhos fitos na tua nuca., dizem os xuar, e é verdade.
    Uma vez, a pedido dos colonos, conseguiste avaliar a astúcia do grande gato mosqueado. Um exemplar cheio de força saciava se nas vacas e nas mulas, e pediram te que desses uma mãozinha. Foi uma pista difícil. Primeiro, o animal deixou se seguir, guiando te até aos contrafortes da cordilheira do
    Condor, terras de vegetação baixa, ideais para a emboscada junto ao chão. Quando te viste metido numa armadilha tentaste sair de lá para regressar à mata densa, e a onça cortava te a passagem mostrando se, mas sem te dar tempo para levares a espingarda à cara. Disparaste duas ou três vezes sem a atingir, até que percebeste que o felino te queria cansar antes do ataque definitivo. Comunicou te que sabia esperar, e talvez também que as tuas munições eram poucas.
    Foi uma luta digna. Lembras te, velho? Estavas à espera, sem mexer um músculo, dando palmadas em ti mesmo para afugentar o sono. Três dias de espera, até que a onça se sentiu segura e se lançou ao ataque. Foi um bom truque aquele de esperar estendido no chão e de arma aperrada.
    Porque é que te estás a lembrar de tudo isto? Porque esta fêmea te enche os pensamentos? Talvez porque ambos sabem que estão em situação semelhante? Depois de quatro assassínios, ela sabe muito dos homens, tanto como tu de onças. Ou, se calhar, tu sabes menos. Os xuar não caçam onças. A carne não é comestível e basta a pele de uma para fazer centenas de enfeites que duram gerações. Os xuar: gostarias de ter um deles ao pé de ti? É claro, o teu compadre Nushiño.
    - Compadre, segues me o rasto?
    O xuar vai se negar. Cuspindo muitas vezes para que saibas que está a dizer a verdade, mostrará desinteresse. É assunto que não é com ele. Tu és o caçador dos brancos, o que tem uma espingarda, o que viola a morte envenenando a de dor.
    O teu compadre Nushiño dir te á que os xuar apenas procuram matar os preguiçosos tzanzas.
    - E porquê, compadre? Os tzanzas não fazem outra coisa senão dormir pendurados nas árvores.
    Antes de responder, o teu compadre Nushiño largará um sonoro peido para que nenhum preguiçoso tzanza o escute e dir te á que, há muito tempo, houve um chefe xuar que se tornou mau e sanguinário. Matava bons xuar sem motivos e os anciãos decidiram a sua morte. Tñaupi, o chefe sanguinário, ao ver se encurralado, pôs se em fuga transformado em preguiçoso tzanza, e como os micos são tão parecidos é impossível saber qual deles esconde o xuar condenado. Por isso, é preciso matá los a todos.
    - Assim dizem que se passaram as coisas dirá o compadre
    Nushiño cuspindo ainda uma última vez antes de partir, porque os xuar se afastam quando acabam uma história, evitando as perguntas que geram mentiras.
    Donde vêm todos estes pensamentos? Vamos, Antonio José
    Bolívar. Velho. Debaixo de que planta se escondem e atacam?
    Será que o medo te encontrou e já não podes fazer nada para te esconder? Se é assim, então os olhos do medo podem ver te, da mesma maneira que vês as luzes do alvorecer entrando pelas fendas na cana.
    Depois de beber várias malgas de café preto, entregou se aos preparativos. Derreteu umas velas e mergulhou os cartuchos no sebo liquefeito. A seguir, deixou os escorrer até ficarem cobertos por uma fina película. Desse modo iriam conservar se secos, mesmo que caíssem na água.
    O resto do sebo derretido, aplicou o na testa, cobrindo especialmente as sobrancelhas até formar uma espécie de pala.
    Assim, a água não lhe perturbaria a vista caso tivesse que enfrentar o animal numa clareira.
    Por fim, experimentou o fio do machete e entrou pela floresta em busca de pistas.
    Começou traçando um raio de duzentos passos contados a partir da choça em direcção a nascente, seguindo as pegadas encontradas no dia anterior.
    Quando chegou ao ponto que fixara iniciou uma variante semicircular para sudoeste.
    Descobriu uma porção de plantas esmagadas, com os caules enterrados na lama. Fora ali que se acaçapara o animal antes de avançar na direcção da choça, e as formações de vegetais vergados repetiam se de tantos em tantos passos, desaparecendo numa encosta da mata.
    Esqueceu aquelas pegadas antigas e continuou à procura.
    Ao procurar debaixo de grandes folhas de bananeira brava encontrou moldadas as patas do animal. Eram patas grandes, talvez como punhos de um homem adulto, e junto do rasto de pegadas encontrou outros pormenores que lhe falaram do comportamento do animal.
    A fêmea não andava à caça. Caules quebrados de ambos os lados das marcas das patas contradiziam o estilo de caça de qualquer felino. A fêmea abanava o rabo, frenética até ao extremo do descuido, excitada perante a proximidade das vítimas. Não, não andava à caça. Deslocava se com a segurança de quem se sabia diante de espécies menos dotadas.
    Imaginou a ali mesmo, de corpo magro, respiração agitada, ansiosa, olhos fitos, pétreos, todos os músculos tensos, e batendo a cauda com sensualidade.
    - Bem, bicho, já sei como é que andas. Agora falta me saber por onde andas.
    Falou para a floresta, recebendo unicamente a resposta da chuva caindo.
    Ampliando o raio de acção, afastou se da choça do cantineiro até chegar a uma ligeira elevação de terreno que, apesar da chuva, lhe proporcionava um bom ponto de observação das imediações. A vegetação tornava se baixa e espessa, em contraste com as árvores altas que o protegiam de um ataque ao nível do solo. Decidiu abandonar a pequena colina avançando em linha recta para poente, em direcção ao rio Iacuambi, que não passava muito longe.
    Pouco antes do meio dia parou de chover, e assustou se.
    Tinha que continuar a chover, pois senão começaria a evaporação e a selva iria sumir se numa névoa densa que não o deixaria respirar e ver um palmo adiante do nariz.
    De repente, milhões de agulhas prateadas perfuraram o tecto florestal iluminando intensamente os lugares onde poisavam.
    Estava mesmo por baixo de uma clareira de nuvens, encandeado pelos reflexos do sol que caía sobre as plantas húmidas.
    Esfregou os olhos praguejando e, rodeado de centenas de efémeros arcos íris, apressou se a sair dali antes de começar a temida evaporação.
    Foi então que a viu.
    Alertado por um ruído de água caindo imprevistamente, virou se e conseguiu vê la deslocando se em direcção a sul, a uns cinquenta metros de distância.
    Movia se lentamente, de focinho aberto e açoitando os flancos com o rabo. Calculou que da cabeça à ponta do rabo media uns bons dois metros e que, erguida sobre duas patas, ultrapassava a altura de um cão de pastor.
    O animal desapareceu atrás de um arbusto e tornou a vê lo quase logo a seguir. Desta vez deslocava se para norte.
    - Esse truque, conheço o eu. Se me queres aqui, muito bem, fico. No meio da nuvem de vapor também tu não serás capaz de ver nada gritou lhe; e entrincheirou se apoiando as costas num tronco.
    A pausa de chuva chamou imediatamente os mosquitos. Atacaram em busca de lábios, pálpebras, arranhões. Como finas poeiras, metiam se nos orifícios nasais, nas orelhas, no meio do cabelo. Rapidamente, meteu um charuto na boca, mastigou o, desfê lo, e aplicou a pasta salivosa no rosto e nos braços.
    Por sorte, a pausa durou pouco e desatou a chover com renovada intensidade. Desse modo regressou a calma, e apenas se ouvia o ruído da água penetrando entre a folhagem.
    A fêmea apareceu várias vezes, deslocando se sempre numa trajectória norte sul.
    O velho olhava para ela, estudando a. Seguia os movimentos do animal para descobrir em que lugar da mata dava aquela volta que lhe permitia regressar ao mesmo ponto do norte para recomeçar o passeio provocatório.
    - Aqui me tens. Eu sou Antonio José Bolívar Proaño e o que menos me falta é paciência. És um animal esquisito, disso não haja dúvidas. Pergunto a mim mesmo se o teu comportamento é inteligente ou desesperado. Porque é que não me rodeias e tentas simulacros de ataque? Porque não vais para nascente, para eu te seguir? Andas de norte para sul, viras pelo lado poente e retomas o mesmo caminho. Julgas que eu sou parvo?
    Estás a cortar me o caminho para o rio. É esse o teu plano.
    Queres ver me a fugir pela floresta adentro e seguir me. Minha amiga, não sou assim tão parvo. E tu não és tão inteligente como eu supus.
    Em certos momentos, vendo a a andar, esteve quase a disparar, mas não disparou. Sabia que o tiro tinha de ser definitivo e certeiro. Se apenas a ferisse, a fêmea não lhe daria tempo para recarregar a arma, e por uma falha dos percutores iam se lhe os dois cartuchos ao mesmo tempo.
    Passaram horas e, quando a luz diminuiu, percebeu que o jogo do animal não consistia em empurrá lo para nascente. Queria o ali, naquele sítio, e esperava pela escuridão para o atacar.
    O velho calculou que dispunha de uma hora de luz, e entretanto tinha de sair dali, chegar à margem do rio e procurar lugar seguro.
    Esperou que a fêmea terminasse um dos percursos para sul e desse a volta que a fazia regressar ao ponto de partida.
    Então, a correr o mais que podia, lançou se na direcção do rio.
    Chegou a um antigo terreno desbravado que lhe permitiu ganhar tempo, e atravessou o de espingarda apertada contra o peito. Com sorte, conseguiria chegar à margem do rio antes de a fêmea descobrir a sua manobra de fuga. Sabia que não longe dali encontraria um acampamento abandonado de pesquisadores de oiro, onde poderia refugiar se.
    Alegrou se ao ouvir o barulho da torrente. O rio estava perto. Só lhe faltava, para chegar à margem, descer um declive de uns quinze metros coberto de fetos, quando o animal atacou.
    A fêmea devia ter se deslocado com tal velocidade e silêncio, quando descobriu a tentativa de fuga, que conseguiu correr paralelamente sem ele dar por isso, até se colocar de um dos lados do velho.
    Recebeu o empurrão dado com as patas dianteiras e rodou às cambalhotas pela encosta abaixo.
    Tonto, ajoelhou se brandindo o machete com as duas mãos e esperou o ataque final.
    Lá em cima, no alto do declive, a fêmea agitava o rabo freneticamente. As orelhas pequenas vibravam, captando todos os ruídos da floresta, mas não atacava.
    Surpreendido, o velho moveu se lentamente para recuperar a espingarda.
    - Porque não atacas? Que jogo é este?
    Armou os cães da arma e meteu a à cara. àquela distância não podia falhar.
    Lá em cima, o animal não tirava os olhos dele. De repente, rugiu, triste e cansada, e sentou se.
    A débil resposta do macho chegou lhe de muito perto e não lhe foi difícil encontrá lo.
    Era mais pequeno que a fêmea e estava estendido ao abrigo de um tronco oco. Tinha a pele colada ao esqueleto e uma coxa quase arrancada do corpo por uma carga de chumbo. O animal mal respirava, e via se que a agonia era dolorosíssima.
    - Era isso que querias? Que lhe desse o tiro de misericórdia? gritou o velho lá para cima, e a fêmea ocultou se entre as plantas.
    Aproximou se do macho ferido e deu lhe uma palmada na cabeça. O animal apenas ergueu uma pálpebra, e ao examinar atentamente a ferida viu que estava a começar a ser comido pelas formigas.
    Encostou os dois canos ao peito do animal.
    - Lamento, companheiro. Aquele gringo filho de uma grande puta fodeu nos a vida a todos. E disparou.
    Não via a fêmea, mas adivinhava a lá em cima, escondida, entregue a lamentações talvez parecidas com as dos humanos.
    Carregou a arma e caminhou despreocupado até chegar à desejada margem. Estava a uns cem metros de distância quando viu que a fêmea descia ao encontro do macho morto.
    Ao chegar ao acampamento abandonado dos garimpeiros estava quase escuro, e descobriu que a chuvada derrubara a construção de canas. Deu uma rápida vista de olhos pelo local e alegrou se ao encontrar uma canoa de ventre rasgado voltada na praia.
    Encontrou também um fardo com rodelas de banana seca, encheu os bolsos delas e meteu se debaixo do bojo da canoa. As pedras do chão estavam secas. Suspirou aliviado ao estender se de barriga para cima, com as pernas esticadas e seguro.
    - Tivemos sorte, Antonio José Bolívar. A encosta era de partir mais que um osso. A sorte foi o colchão de fetos.
    Amimou se na canoa com o machete a seu lado. O bojo da canoa oferecia altura suficiente para se escarranchar se desejasse avançar ou retroceder. A canoa media uns nove metros de comprido e mostrava vários rasgões produzidos pelas pedras afiadas dos rápidos.
    Acomodado, comeu uns punhados de banana seca e acendeu um charuto que fumou com verdadeiro deleite. Estava muito cansado e não tardou a adormecer.
    Foi invadido por um sonho curioso. Via se a si mesmo com o corpo pintado com os tons furta cores da jibóia, e sentado diante do rio para receber os efeitos da natema.
    à sua frente algo se movia no ar, na folhagem, sobre a superfície da água quieta, no próprio fundo do rio. Algo que parecia ter todas as formas e alimentar se ao mesmo tempo de todas elas. Mudava incessantemente, sem permitir que os olhos alucinados se acostumassem a uma. De repente assumia o volume de um papagaio, passava a ser um bagre guacamaio saltando de boca aberta e a engolir a lua, e ao cair à água fazia o com a brutalidade de uma quebra ossos caindo sobre um homem. Esse algo não tinha forma precisa, definível, e, fosse como fosse, sempre nele permaneciam os inalteráveis olhos amarelos.
    - É a tua própria morte disfarçando se para te surpreender.
    Se o faz, é porque ainda não é o momento de partires. Caça a ordenava lhe o feiticeiro xuar, massajando o seu aterrado corpo com punhados de cinza fria.
    E a forma de olhos amarelos movia se em todas as direcções.
    Afastava se até ser tragada pela difusa e sempre próxima linha verde do horizonte, e ao fazê lo os pássaros tornavam a revoar com as suas mensagens de bem estar e plenitude. Mas, passado um tempo, reaparecia numa nuvem negra que descia em torrente, e uma chuva de inalteráveis olhos amarelos caía sobre a floresta prendendo se nas ramagens e nas lianas, incendiando a selva com uma tonalidade amarela incandescente que de novo o arrastava para o frenesim do medo e das febres. Ele queria gritar, mas os roedores do pânico dilaceravam lhe a língua às dentadas. Ele queria comer, mas as finas serpentes voadoras atavam lhe as pernas. Ele queria chegar à sua choça e meter se no retrato que o mostrava junto de Dolores Encarnación del
    Santísimo Sacramento Estupiñán Otavalo e abandonar aquelas paragens de ferocidade. Mas os olhos amarelos estavam por toda a parte cortando lhe o caminho, por toda a parte ao mesmo tempo, como agora, que os sentia por cima da canoa, e esta movia se, oscilava com o peso daquele corpo caminhando sobre a sua epiderme de madeira.
    Conteve a respiração para perceber o que estava a acontecer.
    Não. Não permanecia no mundo dos sonhos. A fêmea estava efectivamente por cima dele, passeando, e como a madeira era muito lisa, polida pela água incessante, o animal valia se das garras para se apoiar caminhando da proa à popa, oferecendo lhe o som próximo da sua respiração ansiosa.
    O correr do rio, a chuva e o passeio do animal eram toda a sua referência do universo. A nova atitude do animal obrigava o a pensar aceleradamente. A fêmea demonstrara ser demasiadamente inteligente para pretender que ele aceitasse o desafio e saísse para a enfrentar em plena escuridão.
    Que novo estratagema era aquele? Era então certo o que diziam os xuar acerca do olfacto dos felinos?
    - A onça capta o cheiro a morto que muitos homens emanam sem saber.
    Algumas gotas e depois uns jorros pestilentos misturaram se com a água que entrava pelos rasgões da canoa.
    O velho percebeu que o animal estava tresloucado. Estava a mijá lo. Marcava o como sua presa, considerando o morto antes de o enfrentar.
    Assim se passaram longas e densas horas, até que uma débil claridade se introduziu no refúgio.
    Ele, em baixo, verificando de costas a carga da espingarda, e lá em cima a fêmea, num passeio incansável que se tornava mais curto e nervoso.
    Pela luz deduziu que era perto do meio dia quando sentiu o animal descer. Atento, esperou pelos novos movimentos, até que um ruído de um dos lados o advertiu de que a fêmea estava a escavar entre as pedras em que assentava a embarcação.
    A fêmea decidia entrar no seu esconderijo, já que ele não respondia ao desafio.
    Arrastando o corpo de costas, retrocedeu até à outra ponta da canoa, justamente a tempo de evitar a garra que aparecera procurando às cegas.
    Ergueu a cabeça com a espingarda colada ao peito e disparou.
    Pôde ver o sangue a saltar da pata do animal, ao mesmo tempo que uma intensa dor no pé direito lhe indicava que calculara mal a abertura das pernas, e vários chumbos lhe entraram no peito do pé.
    Estavam iguais. Ambos feridos.
    Ouviu a afastar se e, ajudado pelo machete, levantou um pouco a canoa, o suficiente para vê la, a uns cem metros, lambendo a pata ferida.
    Então, tornou a carregar a arma e num só movimento virou a canoa.
    Quando se pôs de pé, a ferida provocou lhe uma dor enorme, e o animal, surpreendido, estendeu se em cima das pedras calculando o ataque.
    - Aqui estou. Vamos acabar com este maldito jogo de uma vez para sempre.
    Ouviu se a gritar com uma voz desconhecida, e sem ter a certeza de o ter feito em xuar ou em castelhano, e viu a correr pela praia como uma seta mosqueada, sem fazer caso da pata ferida.
    O velho ajoelhou se, e o animal, ao chegar a uns cinco metros antes do choque, deu o prodigioso salto mostrando as garras e as presas.
    Uma força desconhecida o obrigou a esperar que a fêmea alcançasse o vértice do seu voo. Então apertou os gatilhos e o animal deteve se no ar, quebrou o corpo de um lado e caiu pesadamente com o peito aberto pela chumbada dupla.
    Antonio José Bolívar Proaño ergueu se lentamente.
    Aproximou se do animal morto e estremeceu ao ver que a carga dupla o tinha desfeito. O peito era uma ferida gigantesca e pela espádua espreitavam restos de tripas e pulmões desfeitos.
    Era maior do que julgara quando a vira pela primeira vez.
    Mesmo assim magra, era um animal soberbo, belo, uma obra de galhardia impossível de reproduzir sequer com o pensamento. O velho acariciou a, ignorando a dor do pé ferido, e chorou de vergonha, sentindo se indigno, envilecido, de modo nenhum
    Vencedor daquela batalha. Com os olhos nublados de lágrimas e de chuva, empurrou o belo animal para a beira do rio, e as águas levaram no pela floresta adentro, até aos territórios jamais profanados pelo homem em direcção ao Amazonas, aos rápidos onde seria desfeito por punhais de pedra, para sempre a salvo das indignas alimárias.
    Seguidamente, arremessou a espingarda com fúria e viu a mergulhar sem glória. Besta de metal indesejada por todas as criaturas.
    Antonio José Bolívar Proaño tirou a dentadura postiça, guardou a embrulhada no lenço, e, sem parar de amaldiçoar o gringo que estivera na origem da tragédia, o administrador, os garimpeiros, todos os que insultavam a virgindade da sua
    Amazónia, cortou a golpe de machete um grosso ramo e, apoiando se nele, pôs se a andar na direcção de El Idilio, da sua choça e dos seus romances, que falavam do amor com palavras tão bonitas que às vezes lhe faziam esquecer a barbárie humana.


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