Plano Nacional de Leitura 7ºE/F Alijó 2009/10


    [Capítulo sétimo]Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

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    IsaíasLetra
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    [Capítulo sétimo]Luís Sepúlveda – O velho que lia romances de amor

    Mensagem  IsaíasLetra em Qua Mar 10, 2010 2:45 am

    O grupo de homens reuniu se com as primeiras difusas luzes da alvorada adivinhada sobre as nuvens densas. Um a um foram chegando aos saltos pelo atalho enlameado, de pés nus e de calças arregaçadas até aos joelhos.
    O administrador ordenou à mulher que lhes servisse café e rodelas de banana verde, enquanto ele repartia cartuchos para as espingardas. Três cargas duplas para cada um, além de um feixe de charutos, fósforos de cera e uma garrafa de Frontera por cabeça.
    - Tudo isto é a cargo do Estado. No regresso têm que me assinar um recibo.
    Os homens comiam e enfiavam entre o peito e as costas as primeiras goladas do dia.
    Antonio José Bolívar Proaño permanecia um tanto afastado do grupo e sem tocar no prato de folha.
    Tinha tomado o pequeno almoço cedo e sabia dos inconvenientes de caçar com o corpo pesado. O caçador deve estar sempre com alguma fome, pois esta aguça os sentidos.
    Estava a dar pedra ao machete cuspindo de vez em quando na lâmina, e depois, olhando com um olho só, verificava a perfeição do aço afiado.
    - Tem um plano? perguntou um.
    - Primeiro vamos ao Miranda. Depois se verá.
    O gordo não era, evidentemente, um grande estratega. Depois de verificar aparatosamente a carga da sua Smith and Wesson, mitiguesso" para os habitantes do lugar, embrulhou se num impermeável de oleado azul que lhe fazia ressaltar o corpo amorfo.
    Nenhum dos quatro homens fez o menor comentário. Gozavam vendo o suar como uma enferrujada torneira interminável.
    Já vais ver, Babosa. Já vais ver que morninho é o impermeável. Até os tomates te vão cozer lá dentro.
    Com excepção do administrador, iam todos descalços. Tinham forrado os chapéus de palha com sacos de plástico, e em bornais de lona engomada protegiam os charutos, as munições e os fósforos. As espingardas descarregadas iam a tiracolo.
    - Desculpe. As botas de borracha vão estorvar lhe a marcha observou um.
    O gordo fingiu que não ouviu e deu ordem de partida.
    Abandonaram a última casa de El Idilio e entraram na floresta. Lá dentro chovia menos mas caíam jorros mais grossos. A chuva não conseguia trespassar o espesso tecto vegetal. Acumulava se nas folhas e, quando os ramos cediam sob o peso, precipitava se, aromatizada por todas as espécies.
    Caminhavam lentamente por causa do lamaçal. à frente, dois homens abriam caminho a machete, a meio ia o administrador respirando agitadamente, molhado por dentro e por fora, e atrás os dois homens restantes fechavam o cortejo, podando as plantas que tinham escapado aos machetes da frente.
    Antonio José Bolívar era um dos que iam atrás do administrador.
    - Armem as espingardas. Mais vale andarmos preparados ordenou o gordo.
    - Para quê? É melhor levar os cartuchos secos nos sacos.
    - Quem dá ordens aqui sou eu.
    - às suas ordens, excelência. Afinal os cartuchos são do
    Estado.
    Os homens fingiram carregar as espingardas.
    Passadas cinco horas de caminhada tinham avançado pouco mais que um quilómetro. A marcha foi repetidamente interrompida por causa das botas do gordo. De vez em quando enterrava os pés no lamaçal borbulhante e parecia que a lama ia engolir aquele corpo obeso. Seguia se a luta para tirar os pés de lá, mexendo se com tal lentidão que só conseguia enterrar se mais.
    Os homens retiravam no puxando o pelos sovacos, e uns passos mais adiante lá estava outra vez o administrador enterrado até aos joelhos.
    De repente, o gordo perdeu uma das botas. O pé livre surgiu alvo e leve, mas, para conservar o equilíbrio, enterrou o imediatamente junto do buraco onde a bota desaparecera.
    O velho e o seu companheiro ajudaram no a sair.
    - A bota. Procurem me a bota mandou ele.
    - Nós dissemos lhe que lhe iam causar estorvo. Já não aparece mais. Caminhe como nós, pondo os pés nos ramos caídos.
    Descalço irá muito mais comodamente e avançaremos melhor.
    O administrador, furioso, ajoelhou se e tratou de apartar porções de lama com as mãos. Tarefa inútil. Apanhava um punhado de nata escura e gotejante sem conseguir alterar a superfície.
    - Se fosse a si, não fazia isso. Sabe se lá que bichezas estarão a dormir felizes aí debaixo comentou um deles.
    - Claro. Escorpiões, por exemplo. Enterram se até passarem as chuvas e não gostam de ser incomodados. Têm mau humor como a puta que os pariu acrescentou o velho.
    O administrador, ajoelhado, olhava para eles com ódio.
    - Julgam que eu engulo essas pintelhadas? Querem assustar me com histórias da carochinha?
    - Não, excelência. Espere aí.
    O velho cortou um ramo, abriu lhe uma das pontas em garfo e enterrou a várias vezes na lama borbulhante. Por fim, retirou o, limpou o cuidadosamente com o machete e no chão caiu um escorpião adulto. O insecto vinha coberto de lama mas via se lhe, mesmo assim, a cauda peçonhenta levantada.
    - Está a ver? E o senhor, que transpira tanto, todo salgadinho, é um convite para estes bichos.
    O administrador não respondeu. Com o olhar perdido no escorpião que tratava de mergulhar outra vez na tranquilidade do lamaçal, puxou do revólver e descarregou o disparando os seis tiros sobre o insecto. Então tirou a outra bota e atirou a para o meio da folhagem.
    Com o gordo descalço a marcha tornou se um pouco mais ágil, mas perdiam sempre tempo nas subidas. Trepavam todos sem dificuldades e paravam para olhar para o administrador que, de gatas, avançava um par de metros e retrocedia quatro.
    - Apoie se com o cu, excelência. Agarre se como nós. Abra bem as pernas antes de poisar a pata. O senhor só as abre dos joelhos para baixo. Isso é andar como uma freira a passar por um combate de galos. Abra as bem e apoie se com o cu gritavam lhe eles.
    O gordo, de olhos avermelhados de fúria, tentava subir à sua maneira, mas o corpo amorfo atraiçoava o uma vez e mais outra, até que os homens formavam uma corrente de braços e puxavam por ele para cima.
    As descidas eram rápidas. O administrador fazia as sentado, de costas ou de cabeça para baixo. Chegava sempre primeiro, coberto de barro e de restos de plantas.
    A meio da tarde novas e grandes nuvens se condensaram no céu. Não podiam vê las, mas adivinhavam nas na obscuridade que tornava a floresta impenetrável.
    - Não podemos continuar. Não se vê nada disse o administrador.
    - Isso parece sensato respondeu o velho.
    - Bem, então aqui ficamos ordenou o administrador.
    - Ficam vocês. Eu vou procurar um lugar seguro. Não demoro.
    Fumem para me orientarem no regresso disse o velho, e entregou a sua espingarda a um dos homens.
    O velho desapareceu engolido pela escuridão e os homens ficaram a fumar os seus charutos de folha dura, protegendo os com as mãos em concha.
    Não lhe levou muito tempo a dar com um terreno plano.
    Percorreu o, medindo o às passadas e, com a lâmina do machete, apalpou a textura da vegetação. De repente, o machete devolveu Lhe um som metálico e o velho respirou satisfeito.
    Regressou para junto do grupo orientando se pelo cheiro a tabaco e comunicou lhes que encontrara um lugar para passarem a noite.
    O grupo chegou ao terreno plano e dois homens entregaram se à tarefa de cortar folhas de bananeiras bravas. Atapetaram o solo com elas e sentaram se satisfeitos emborcando uma merecida golada de Frontera.
    - Que pena não se poder fazer uma fogueira. Estaríamos mais seguros junto de um bom fogo queixou se o administrador.
    - É melhor assim opinou um dos homens.
    - Não gosto disto. Não gosto da escuridão. Até os selvagens se protegem com o fogo alegou o gordo.
    - Olhe, excelência, estamos num lugar seguro. Nós não podemos ver o animal, se é que anda por perto, e ele não nos pode ver a nós. Se acendêssemos uma fogueira estávamos a dar lhe de presente uma oportunidade de nos ver, e nós não o veríamos a ele porque o fogo encandeava nos. Deixe se ficar tranquilo e trate de dormir. Estamos todos a precisar de um sono. Ah, e sobretudo evitemos falar.
    Os homens secundaram as palavras do velho e, depois de um breve conciliábulo, puseram se de acordo quanto aos turnos de guarda. O velho faria o primeiro e encarregar se ia de despertar o seu substituto.
    O cansaço da caminhada apoderou se rapidamente dos homens.
    Dormiam encolhidos, abraçando as pernas e cobrindo as caras com chapéus. As suas respirações tranquilas não interrompiam o ruído da chuva.
    Antonio José Bolívar estava sentado, de pernas cruzadas e costas apoiadas num tronco. De vez em quando acariciava a lâmina do machete e recebia, atento, os sons da floresta. As pancadas repetidas de algo de volumoso a cair na água indicaram lhe que estavam perto de um braço de rio ou de um ribeiro cheio. Nas épocas das chuvas, os aguaceiros arrastavam milhares de insectos que caíam dos ramos e os peixes tinham banquetes. Saltavam de felicidade, de barriga cheia e satisfeitos.
    Recordou se da primeira vez que viu um verdadeiro peixe de rio. Tinham passado muitos anos desde então. Ainda era um aprendiz na floresta.
    Numa tarde de caçada sentiu que o corpo tinha um fedor ácido de tanto suar e ao chegar a um ribeiro preparou se para dar um mergulho. Quis a sorte que um xuar o visse a tempo e lhe lançasse um grito de aviso.
    - Não te metas. É perigoso.
    - Piranhas?
    O xuar acertou que não. As piranhas juntam se nas águas mansas e profundas, nunca nas com muita corrente. São peixes toscos e só adquirem velocidade impelidos pela fome ou pelo cheiro a sangue. Nunca teve problemas com as piranhas.
    Aprendeu com os xuar que basta untar o corpo com leite de seringLeira para as afugentar. O leite da árvore da borracha pica, arde, ameaça levantar a pele, mas a comichão vai se quando se entra em contacto com a água fresca e as piranhas fogem mal lhe sentem o cheiro.
    - Pior que as piranhas disse o xuar, e levou o a seguir o movimento da sua mão que apontava para a superfície do regato.
    Viu uma mancha escura de mais de um metro de comprimento a deslizar rápida.
    - Que é? Um bagre guacamaio.
    Um peixe enorme. Mais tarde, pescou alguns exemplares que atingiam os dois metros, ultrapassando os setenta quilos de peso, e soube também que eram inofensivos mas mortalmente amistosos.
    Quando viam um ser humano na água, aproximavam se para brincar, dando Lhe, de afecto, tais pancadas com a cauda que facilmente lhe partiam a espinha.
    Ouvia repetirem se as pancadas pesadas na água. Talvez se tratasse de um bagre guacamaio banqueteando se de cupins, besouros machos, hastes vivas, lagostas, grilos, aranhas, ou finas cobras voadoras arrastadas pela chuvada.
    Era um ruído de vida no meio da escuridão. Era como dizem os xuar: de dia, há o homem e a floresta; de noite, o homem é floresta.
    Esteve a ouvi lo agradado, até que deixou de se repetir.
    O homem que o ia render apareceu. Fez estalar os ossos a espreguiçar se e aproximou se.
    - Já dormi o suficiente. Anda, estende te na minha cama.
    Deixei ta morninha.
    - Não estou cansado. Prefiro dormir quando clarear.
    - Estava qualquer coisa a saltar na água, não era?
    O velho ia a falar lhe dos peixes, mas foi interrompido por um ruído novo que chegava da mata.
    - Ouviste?
    - Calado. Calado.
    - Que será?
    - Não sei. Mas é bastante pesado. Acorda os outros sem ruído.
    O homem não conseguiu levantar se e ambos se viram atacados por um clarão de prata que feria a vegetação húmida aumentando o efeito de cegueira.
    Era o administrador, alarmado pelo ruído, que se aproximava de lanterna acesa.
    - Apague isso ordenou o velho, enérgico, sem erguer a voz.
    - Porquê? Há aqui qualquer coisa e quero ver de que se trata
    - respondeu o gordo, movendo o jorro de luz em todas as direcções e accionando ao mesmo tempo o cão do revólver.
    - Já lhe disse que apague essa merda. O velho tirou lhe a lanterna com uma palmada.
    - Então julgaste...
    As palavras do gordo foram abafadas por um intenso bater de asas e uma cascata fétida caiu sobre o grupo.
    - Fê la das boas. Temos que partir imediatamente ou então as formigas vêm disputar nos a merda fresca.
    O administrador não soube como reagir. às apalpadelas procurou a lanterna e às apalpadelas seguiu o grupo que abandonava o lugar onde tinha pernoitado.
    Os homens maldiziam a tolice do gordo com palavras mastigadas para que não percebesse a magnitude dos insultos.
    Caminharam até uma clareira e aí receberam em plenitude o aguaceiro.
    - Que se passou? Que foi aquilo? perguntou o gordo quando parou.
    - Merda. Não lhe cheira?
    - Já sei que é merda. Estávamos debaixo de um bando de macacos?
    Uma ténue visibilidade tornou visíveis os perfis dos homens e os contornos da floresta.
    - Se lhe servir para alguma coisa, excelência, digo lhe que, quando se pernoita na selva, temos que nos encostar a uma árvore queimada ou petrificada. É aí que se penduram os morcegos, que são o melhor sinal de alarme com que podemos contar. Os bichos preparavam se para voar em direcção contrária ao ruído que escutávamos e teríamos assim sabido onde estava. Mas o senhor, com a sua luzinha e os seus gritos, espantou os e atiraram nos o jorro de merda. Como todos os roedores, são muito sensíveis, e ao menor sinal de perigo soltam tudo o que têm lá dentro para se tornarem leves. Ande, esfregue bem a cabeça, se não quiser que os mosquitos o comam.
    O administrador imitou o resto do grupo, retirando o fedorento esterco. Quando acabaram, já tinham luz suficiente para continuarem a marcha.
    Caminharam durante três horas, sempre para Nascente, evitando regatos cheios, quebradas, clareiras que atravessavam olhando para o céu de boca aberta para receberem a água fresca, e ao chegarem a uma lagoa fizeram alto para comer qualquer coisa.
    Reuniram frutos e camarões que o gordo se negou a comer crus. O gordo, embrulhado no impermeável de oleado azul, tiritava de frio e continuava a lamentar se por não poder acender uma fogueira.
    - Estamos perto disse um.
    - Sim. Mas vamos dar uma volta para chegarmos por trás.
    Seria fácil ir ao longo do rio e chegar de frente, mas lembro me de que o bicho é inteligente e poderia fazer nos uma surpresa assinalou o velho.
    Os homens manifestaram o seu acordo e engoliram a comida com uns bochechos de Frontera.
    Ao verem que o gordo se afastava, não de mais, e se perdia oculto por detrás de um arbusto, deram cotoveladas uns aos outros.
    - Sua senhoria não nos quer mostrar o cu.
    - É tão parvo que se vai sentar num formigueiro julgando que é uma latrina.
    - Aposto que vai pedir papel para se limpar atirou outro entre gargalhadas.
    Divertiam se nas costas da Babosa, que era como sempre lhe chamavam na sua ausência. As gargalhadas foram cortadas, primeiro pelo grito aterrorizado do gordo e, seguidamente, pela série de tiros disparados. Seis tiros do revólver, esvaziado generosamente.
    O administrador apareceu a puxar as calças para cima e chamando os aos gritos.
    - Venham! Venham! Eu vi a. Estava atrás de mim preparada para me atacar, e parece que lhe meti um par de balas. Venham!
    Todos à procura dela!
    Prepararam as espingardas e lançaram se na busca na direcção que o gordo lhes indicara. Seguindo um notório rasto de sangue que aumentava a euforia do administrador, chegaram até junto de um belo animal de focinho alongado, que dava os últimos estertores. A bela pele amarela mosqueada tingia se de sangue e lama. O animal olhava para eles de olhos muito abertos e do seu focinho de trombeta escapava se lhe um débil arquejo.
    - É um urso do mel. Porque é que não olha antes de disparar com o seu maldito brinquedo? Dá azar matar um urso do mel.
    Isso é coisa que todos sabem, até os tontos. Não existe animal mais inofensivo em toda a floresta.
    Os homens abanavam a cabeça comovidos com a sorte do animal, e o gordo recarregava a sua arma sem atinar com nada para dizer em sua defesa.
    Passava do meio dia quando viram o letreiro descorado de
    Alkaseltzer identificando a cantina de Miranda. Era um rectângulo de latão azul com caracteres quase ilegíveis que o cantineiro pregara muito acima na árvore junto da qual se erguia a sua choça.
    Foram encontrar o colono a escassos metros da entrada.
    Apresentava as costas abertas por dois rasgões de garras, que começavam nas omoplatas e se prolongavam até à cintura. O pescoço incrivelmente aberto deixava a cervical à vista.
    O morto estava de bruços e empunhava ainda um machete.
    Ignorando a mestria arquitectónica das formigas, que durante a noite tinham construído uma ponte de folhas e raminhos para trabalhar o cadáver, os homens arrastaram no para a cantina.
    Lá dentro ardia debilmente um candeeiro de petróleo e fedia a gordura queimada.
    Quando se aproximaram do fogão de querosene descobriram a origem do cheiro. O aparelho ainda estava morno.
    Tinha consumido a última gota de combustível e depois chamuscara as torcidas. Numa frigideira restavam dois rabos de iguana carbonizados.
    O administrador olhava para o cadáver.
    - Não percebo. O Miranda era veterano por cá e não se pode, de modo nenhum, falar se dele como de um homem medroso, mas parece que sentiu tal pânico que nem sequer se preocupou com apagar o fogão. Porque é que não se fechou quando ouviu a onça? A espingarda está ali pendurada. Porque é que não a usou?
    Os outros faziam a si mesmos perguntas semelhantes.
    O administrador despojou se do impermeável de oleado e uma cascata de suor retido molhou o até aos pés. Olhando para o morto, fumaram, beberam, um pôs se a reparar o fogão e, autorizados pelo gordo, abriram umas latas de sardinhas.
    - Não era mau tipo disse um.
    - Desde que a mulher o deixou vivia mais sozinho que uma bengala de cego acrescentou outro.
    - Tinha parentes? perguntou o administrador.
    - Não. Veio com o irmão, mas esse morreu de malária já há vários anos. A mulher foi se lhe com um fotógrafo ambulante e dizem que vive agora em Zamora. Talvez o mestre do barco saiba do paradeiro dela.
    - Suponho que a cantina lhe dava algum lucro. Sabem que é que ele fazia com o dinheiro? interveio outra vez o gordo.
    - Dinheiro? Jogava às cartas, deixando de parte apenas o necessário para repor as mercadorias. Aqui é assim, se é que ainda não sabe. É a floresta que se mete por nós adentro. Se não temos um ponto fixo a que queremos chegar, damos voltas e mais voltas.
    Os homens concordaram com uma espécie de orgulho perverso.
    Nisto entrou o velho.
    - Lá fora há outro cadáver.
    Sairam à pressa e, encharcados pela chuva, encontraram o segundo morto. Estava de costas e com as calças para baixo.
    Mostrava as marcas das garras nos ombros e a garganta aberta com características que começavam a tornar se familiares.
    Junto do cadáver, o machete enterrado a pouca distância dizia que não conseguira ser utilizado.
    - Acho que percebo disse o velho.
    Estava em redor do corpo, e no olhar do administrador viam como o gordo procurava febrilmente chegar à mesma explicação.
    - O morto é o Plascencio Puñán, um tipo que não aparecia muito, e parece que se preparavam para comer juntos. Viu os rabos de iguana chamuscados? Foi o Plascencio que os trouxe.
    Por aqui não há desses bichos e deve tê los caçado a várias jornadas no interior da mata. O senhor não o conheceu. Era um pesquisador de pedras. Não andava atrás do oiro como a maioria dos malucos que se abeiram destas terras, e garantia que lá muito para dentro se podiam encontrar esmeraldas. Lembro me de o ter ouvido falar da Colômbia e das pedras verdes, grandes como uma mão fechada. Pobre tipo. A certa altura deve ter sentido vontade de esvaziar as tripas e saiu cá para fora para isso. Foi assim que o animal o apanhou. Agachado e apoiado no machete.
    Nota se que o atacou de frente, que lhe enterrou as garras nos ombros e Lhe enfiou as presas no gasganete. O Miranda deve ter ouvido os gritos e deve ter presenciado a pior parte de tudo, e então preocupou se apenas com pôr a sela na mula e deitar a fugir. Não chegou muito longe, como vimos.
    Um dos homens virou o cadáver. Tinha restos de excrementos pegados às costas.
    - Vá lá que ainda conseguiu fazer a sua cagada disse um homem. E deixaram o cadáver de barriga para baixo, para que a implacável chuva lavasse os vestígios do seu último acto neste mundo.


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